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Onde “mora” a violência negra? – papo reto

Dizer que apenas homens negros produzem violência dentro da comunidade negra e que mulheres negras são as vítimas absolutas de homens negros é um dispositivo de marginalização dos homens pretos.

Se compreendermos que nossa sociedade é punitivista, que visa construir criminosos e marginais, jamais iremos utilizar estratégias de punição, de criminalização e de marginalização de pessoas negras para debater os nossos sofrimentos.

É importante que a gente comece a pensar como os outros gêneros, as outras identidades sexuais de pessoas negras, produzem violência… Eu sou um homem homoafetivo, que na minha família apanhava de muitas formas de mulheres negras, minhas tias.

Eu sofria homofobia na rua de mulheres negras. As violências que sofri, por ser um homem negro, homoafetivo, afeminado, não vieram apenas de homens negros. Em determinadas situações, a intensidade da violência de mulheres negras se equivalia a dos homens negros…

Eu atendo homens negros homoafetivos, trans, e que trazem diversas violências que sofrem das suas companheiras, dentro da família, da mãe, de mulheres negras no ambiente de trabalho.

Havaiana de Pau (Imagem: Mundo Canibal)
Havaiana de Pau (Imagem: Mundo Canibal)

A violência dentro da comunidade negra também é produzida por mulheres negras e precisamos falar disso para sair desse lugar do homem negro único produtor de violência.

A violência é sistêmica, estrutural e comunitária. E a estrutura punitivista do Estado se sustenta na existência e na produção de criminosos, de algozes absolutos. É pensada para punir esses criminosos, esses algozes absolutos e, quando se intersecciona com a raça, para matar, dizimar.

O argumento utilizado para que justiceiros dizimem crianças negras é que elas são marginais, cometem crimes, são violentas, roubam, são agressivas.

Este é o mesmo argumento usado, muitas vezes, por algumas mulheres negras, que seguem essa perspectivista punitivista contra os homens negros – de que são violentos, agressivos, não escutam.

Assim, se constrói o arquétipo do marginal, utilizado pela esturutra do Estado para matar homens negros.

Pessoas negras que se dizem quilombistas, pan-africanistas, afrocentradas, mulheristas, que têm conhecimento profundo sobre raça, que são abolicionistas penais – e não acreditam nesta estrutura punitivista – não devem utilizar-se justamente do dispositivo que faz com que a morte de homens negros seja legitimida.

Precisamos discutir homofobia, transfobia, machismo, gordobofobia, que homens e mulheras negras, cis ou trans, em suas diversas identidades sexuais produzem. O que não podemos é afirmar que uma identidade sexual de pessoa negra é responsável por toda violência. Não podemos usar a mesma lógica que mata o nosso povo.

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Omoloji Agbara

Omoloji Àgbára

Omoloji Àgbára é psicanalista. Em seu trabalho clínico, articula Psicanálise, estudos raciais e a filosofia africana diaspórica. Pessoa do candomblé, iniciado há nove anos, é filho de Omulu e Nanã.

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