Ela é a primeira a reinar sozinha na história da humanidade, em Kemet, nome que os antigos egípcios davam ao seu país. Permanece 22 anos no poder! Legalmente, não havia proibição para uma mulher governar, embora o faraó, para ser considerado “ideal”, devesse ser homem — se possível bonito, atlético, corajoso, piedoso e sábio…

O que você vai ler nesta edição: Quem foi Hatshepsut? Como Hatshepsut foi coroada rainha e se tornou faraó? Quantos anos durou o reinado de Hatshepsut? Qual o legado do reinado de Hatshepsut? É verdade que Hatshepsut era filha de irmãos e casada com um meio-irmão? Hatshepsut foi a rainha mais poderosa do Antigo Egito? Qual é o significado do nome de Hatshepsut? Quais as conquistas de Hatshepsut para o Antigo Egito? O que aconteceu depois da morte de Hatshepsut? Por que sua história ficou esquecida por mais de três milênios?
“No Egito, ao que parece, é a mulher que herda os direitos políticos. Porém, dada a sua inferioridade física natural, é o seu marido que domina, enquanto a esposa assegura a continuidade uterina da dinastia”.
– Cheik Anta Diop, livro A Unidade Cultural da África Negra, 1959
Uma mulher assumir o poder, mães substituírem filhos pequenos, como rainhas de um lugar, ou ocupar o posto máximo por os maridos estarem ausentes, no campo de batalha, era comum em passado longínquo. Mas o caso da rainha-faraó Hatshepsut foge de qualquer script. Pioneira africana, ela assume o poder por conta própria e todos se rendem!
Em nome da dinastia
Um costume de Kemet, Antigo Egito, consistia em membros da família real se casarem entre si. Em outras palavras, incesto era estratégia de manutenção de poder. Enlaces matrimoniais entre irmãos era algo tão comum entre a realeza que, passado um tempo, a plebe passou a adotar o mesmo expediente. E esta é a história de Hatshepsut, dos que vieram antes dela e dos que vieram depois…
Os avós da rainha-faraó – Amenófis I e Akh Optou II – eram irmãos. Seus pais – Amósis e Tutmósis I – também eram irmãos. E Tutmósis I, como pai e faraó, preocupado com a continuidade de sua linhagem, antes de morrer, decide casar sua única filha Hatshepsut com seu meio-irmão, Tutmósis II, filho de sua “esposa secundária”.

Na época, Hatshepsut tinha cerca de 24 anos. Pouco se sabe sobre o reinado do homem com quem ela se casou. O que importa é que, às portas da morte em 1479 Antes da Era Comum (AEC), o marido-irmão deixa seu herdeiro – como ele, filho de uma “esposa secundária” -, Tutmósis II, nascido dois anos antes, sob a tutela de sua rainha. Assim, Hatshepsut, na qualidade de grande esposa real do faraó, assume o poder como regente de Tutmósis III, menor de idade.
Por que utilizamos a marcação de tempo “Antes da Era Comum” (AEC) e não “antes da Cristo” (a.C.)?
“Antes da Era Comum” (AEC) é uma alternativa à expressão “antes de Cristo” (a.C.) que se torna popular em contextos acadêmicos para evitar a associação religiosa implícita com a cronologia cristã. Ao invés de referir-se ao nascimento de Jesus, “AEC” indica que um evento ocorreu antes do início do calendário usual, que é o calendário gregoriano.
Do ventre de Hatshepsut, fruto do casamento com o meio-irmão, nasce apenas a menina Neferuré.
O poder e a fé
Nos primeiros sete anos, a rainha-regente, de fato, toma as decisões em nome do enteado Tutmósis III – o menino só fica responsável pela realização dos cultos às divindades.
Passado este setênio, Hatshepsut decide unificar as duas coroas – rainha e faraó – e adota os atributos faraônicos como títulos, nomes, cetros, barba postiça, tanga curta e cauda de touro.
Publicamente, declara ser filha do deus Amon-Rá, divindade mais importante da época, e consolida seu poder real por meio de sua paternidade espiritual diante das pessoas mais importantes do Egito.

Conta a mitologia africana que é como se o deus Amon-Rá tivesse consultado doze divindades antes de lhe escolher como herdeira do trono. Ou, como se o seu pai carnal, Tutmósis I, a tivesse escolhido.
Em Kemet, não era incomum um faraó virar divindade. Quando o mesmo morria, entrava para o mundo dos mortos, governado por deus Osíris para, depois, integrar o conjunto de deuses egípcios.
A princípio, os sacerdotes não concordaram com a proclamação de Hatshepsut como faraó. Mas, em pouco tempo, passaram a acreditar que as decisões da soberana satisfaziam ao deus venerado e temer que, caso não fossem cumpridas, pragas cairiam sobre o país e acabariam com as colheitas.
Importante registrar que a prosperidade – os sacerdotes também recebiam riquezas da coroa – e a tranquilidade da época fortaleceram tal linha de pensamento entre os homens de fé.
Uma matriarca, dois faraós
O curioso é que Hatshepsut se proclama faraó, mas não destitui Tutmósis III, não o exclui da história. Ao contrário, os dois aparecem juntos em quase todas as imagens produzidas em monumentos.
E a super soberana também não altera o calendário egípcio – a tradição era sempre iniciar a contagem do tempo a partir da ascensão de um novo faraó, mas ela prefere inserir-se nos anos de Tutmósis III.
Oficialmente, Hatshepsut assume como o quinto faraó a governar Kemet, na 18ª dinastia – dinastia criada após a expulsão dos Hicsos, povos de origem asiática, que comandaram o Antigo Egito por quase duzentos anos. E, de acordo com o egiptólogo Cheikh Anta Diop, um dos maiores historiadores do século XX, ela se torna faraó por direito.

No livro A Unidade Cultural da África Negra – esferas do patriarcado e do matriarcado na antiguidade clássica, publicado em 1959, Anta Diop reproduz o mito sobre a coroação de Hatshepsut pelo próprio pai, por ela ter direitos políticos garantidos pelo sistema matriarcal:
“A rainha Hatshepsut possuía, da sua mãe, Amósis, e da sua avó Akh Optou, direitos de sucessão superiores não somente aos do seu marido e irmão, Tutmosis II, mas aos de seu próprio pai, Tutmósis I… E é a maior ou menor nobreza da mãe que sustenta os direitos de sucessão ao trono, excluindo os do pai…”
O reinado
E, uma vez no poder, como os faraós que vieram antes, Hatshepsut atua, também, como comandante militar. Lidera tropas em pelo menos duas ocasiões, sendo descrita como uma grande conquistadora:
“Aquela que sairá vitoriosa, ardendo contra seus inimigos”.
Ao longo de seu reinado, de 1479 a 1458 AEC, Hatshepsut dá provas de “uma energia quase masculina” – palavras de Cheikh Anta Diop. Defende fronteiras e reconquista importantes rotas comerciais:
Sob suas ordens, é estabelecida a comercialização através do Mar Vermelho com a região do Punt, conhecida desde o Império Antigo como a terra de ouro, por conta de suas riquezas, como mirra, incenso, ébano, marfim e animais exóticos – acredita-se, costa da Somália nos dias atuais.
Hatshepsut traz para o Egito 31 árvores de mirra para plantar – considerada mercadoria de luxo, conhecida por suas propriedades antissépticas, adstringentes e medicinais e, desde a antiguidade, utilizada em rituais, perfumes, incensos, medicamentos e na mumificação. Mirra que é, entre as maravilhas, considerada a mais preciosa. A própria faraó usava óleo perfumado de mirra na pele.
A expedição à região do Punt é retratada no Templo de Hatshepsut, em Deir El Bahri. Nas suas paredes, é possível ver as cenas que mostram cinco barcos seguindo a rota do Mar Vermelho, a recepção pelo rei local, Pa-Rahu, e a sua esposa, Ity, bem como as árvores plantadas.ecinto.
As maiores marcas de seu reinado, entretanto, não são as expedições, mas a paz, a diplomacia e o desenvolvimento, via comércio internacional e grandes obras, que aqueciam o mercado de trabalho.
Validação
Como soberana do Egito, ainda, Hatshepsut utiliza à exaustão toda a simbologia egípcia para o povo legitimá-la no cargo, o que inclui a construção de uma série de imagens de sua coroação.
Na condição de “esposa de deus”, filha de Amon-Rá, dedica-lhe monumentos e objetos votivos. O período de paz e riquezas no Egito de Hatshepsut é atestado, inclusive, pelas obras do templo de Amon em Carnaque e pelo templo funerário em Tebas, entre outras grandes construções.

Hatshepsut mistura religiosidade, amor e investimentos. Foram recuperadas, em escavações, cerca de 20 estátuas de Senenmut, arquiteto da 18ª Dinastia do Antigo Egito. Suspeita-se que ele era amante da faraó. Tanto que teve o privilégio ímpar de aparecer retratado nos relevos do templo de Deir El Bahri.
Rei morto, rei posto
Hatshepsut nasce na cidade de Tebas e vive 37 anos, até 16 de janeiro de 1458 AEC. Pesquisas do século XX sugerem que a sua morte teve como causa câncer nos ossos, depois de uma vida com doenças como artrose e diabetes. Seu corpo foi sepultado no Vale das Rainhas.
Trono vago, Tutmósis III, seu sobrinho-enteado, filho do marido-irmão Tutmósis II, assume o poder. E, passados alguns muitos anos, faz desaparecer intencionalmente da memória dinástica o nome de sua tia-madrasta, com a derrubada de estátuas, profanação dos monumentos em sua homenagem, bem como a retirada de suas insígnias.

Para os antigos egípcios, o povo de Kemet, a morte é apenas um passo na estrada para uma vida eterna e feliz. No entanto, o espírito só vive além do túmulo se permanece alguma memória dele na terra dos vivos – um corpo, uma estátua ou pelo menos um nome…
Daí, a tese de ter sido um ato de vingança o apagamento da existência da rainha-faraó. Só não se sabe se de autoria de Tutmósis III ou de seu filho Amenófis II.
O resgate
Século XX – Ano 1903. A história e o legado de Hatshepsut são resgatados com a descoberta de seus restos mortais, a partir da decodificação de hieróglifos que permitem a leitura de inscrições que resistiram a ataques em um passado remoto.
As imagens haviam sofrido “quase todas as indignidades imagináveis”, escreve Herbert Winlock (1884-1950), chefe da equipe arqueológica do Museu Metropolitan, nos Estados Unidos, que descobre os destroços no grande complexo de templos e tumbas de Deir El-Bahari, no Egito.
Vestígios de Hatshepsut são encontrados também em muitas outras construções erguidas durante seu reinado, como dois pares de obeliscos no complexo de templos de Karnak e o templo de Pajet, escavado na pedra em Beni Hasan. Sem contar centenas de estátuas de si mesma, bem como seus pensamentos e relatos de sua história — inscritos em pedra.
Líder sim, homem não
Trazer Hatshepsut a uma ”vida eterna e feliz” só foi possível – de acordo com os arqueólogos – por ela ser uma mulher vaidosa e ambiciosa.
Em seu tempo de reinado, aparecia em desenhos e estátuas com roupas e acessórios típicos de um faraó – desde a coroa perfeita até a barba postiça, considerada um atributo divino dos deuses.

Na representação de seu corpo, torna-se cada vez mais masculina, aproximando-se do estereótipo de um rei. Sua intenção, no entanto, sempre, é projetar-se como líder, não como homem — prova disso é que suas imagens quase sempre contêm símbolos representando seu verdadeiro gênero, o que inicialmente confundiu os egiptólogos.
Poder feminino
Diferente de outras civilizações, as mulheres no Antigo Egito tinham direitos e autonomia na sociedade. Podiam ter posses de terras, redigir testamentos, participar de transações comerciais, nos tribunais – como acusadoras, defensoras ou testemunhas -, ser equiparada aos homens, juridicamente, consideradas detentoras de iguais direitos, prerrogativas e responsabilidades.
Apareciam na história desfrutando de prestígio social pelo título de mulher casada. Muitos casais, com seus filhos, eram representados testemunhando a importância da mulher e da estrutura familiar. Não obstante possuírem uma vida política e religiosa – como sacerdotisas -, cada uma poderia ter a sua profissão, registrada até em escritos antigos. Mesmo após o casamento ou em casos de divórcio, não perdiam seus direitos.
Neferica-Rá, da 5ª dinastia durante o reinado de Sahurá, e Peseshet, durante o reinado de Amenhotep III, da 18ª dinastia, são dois exemplos do espaço conquistado pela mulher na sociedade egípcia. Podiam exercer também cargos de chefia, e as que viviam na realeza desfrutavam de maior prestígio social. Eram conhecidas como adoradoras ou cantoras de Amom, esposas reais, mães do faraó-deus.
• • • • •
O nome Hatshepsut é traduzido como “a mais importante das nobres damas”. E, de fato, seu reinado é um dos mais formidáveis e exitosos do mundo antigo, considerado uma era de prosperidade econômica, um dos mais bem-sucedidos da história egípcia e que, “curiosamente”, por mais de três milênios, ninguém sabia que quem o ocupava era uma mulher nascida no continente africano.
• • • • •
Fontes: livro A Unidade Cultural da África Negra, Cheikh Anta Diop; Brasil Escola, Biografias de Mulheres Africanas, BBC, História do Mundo, Wikipédia
Escrito em 10 de junho de 2025