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Kemet, Egito Antigo

Kemet, a “mãe” de todas as civilizações modernas. Informações úteis para a leitura do texto abaixo:• Kemet significa “terra preta”, referência às férteis planícies de inundação do rio Nilo, em contraste com o deserto vermelho.[...]

O que este artigo responde:

O que significa Kemet? Qual a importância de Kemet para as civilizações modernas? Quem são Ausar, Auset e Heru? Qual a relação entre o mito de Hórus e o Cristianismo? Quem foi Ausar (Osíris) em Kemet? O que é a Cosmogonia Kemética Africana? Como Kemet se formou no Vale do Nilo? O que o artigo diz sobre a ideia de culpa na ciência africana? Quem foi Set na mitologia de Kemet?

Sumário

Kemet, a “mãe” de todas as civilizações modernas.

A Pesagem do Coração, também conhecida como Julgamento de Osíris (Imagem: Reprodução)
A Pesagem do Coração, também conhecida como Julgamento de Osíris (Imagem: Reprodução)

Informações úteis para a leitura do texto abaixo:
Kemet significa “terra preta”, referência às férteis planícies de inundação do rio Nilo, em contraste com o deserto vermelho. É o nome original do também chamado Egito Antigo, derivado do grego Aígyptos, adotado pelos europeus.
Keméticos é a designação original dos nascidos em Kemet ou Egito Antigo.
Antes da Era Comum (a.e.c.) é a datação do tempo sem interferência da religiosidade cristã, do a.C./d.C. (antes e depois de Cristo).

Por Tania Regina Pinto

Nossa história não tem início com Adão e Eva nem com a virgem Imaculada… Ela começa milhares de anos antes da Era Comum e é contada, há mais de 5.500 anos nas paredes do Templo de Luxor, sítio arqueológico no Egito, onde havia imagens com Thoth anunciando à Virgem Ísis que ela conceberia Hórus, com Kneph, o “Espírito Santo”, engravidando-a virgem. E três reis, ou magos, lhe trariam presentes. 

Auset e Heru – também conhecidos como Ísis e Hórus – , no Cristianismo, foram nomeados Maria e Jesus.

Esta é a primeira história do Mito do Heroi Humano, um antigo conto de amor, traição, morte e renascimento que gira em torno das divindades egípcias Ausar, também conhecido como Osíris, e sua consorte Auset (Ísis) e seu filho Heru (Horus).

Ausar era um governante justo e sábio, amado por seu povo e admirado por seus pares. Seu reinado é marcado pela paz e pela prosperidade. Ele é um dos primeiros líderes de Kush – porção sul da Núbia, área fronteiriça com o Egito Antigo.

Ausar desenvolve a palavra escrita, a agricultura, as artes, o direito e a teologia. E, de posse desses saberes, compartilha seus ensinamentos ao longo do Vale do Nilo, no território então conhecido como Kemet.

Em sua viagem de ensino, conhece uma bela mulher núbia chamada Auset, a deusa do amor; se casa com ela, mas a deixa em sua terra natal para continuar sua jornada como professor. 

Famoso e admirado, em Kemet, Ausar unifica tribos selvagens e dispersas no primeiro estado-nação do mundo. É um pacificador, reconhecido como um homem de ordem, virtude, um erudito exemplar…

Ódio, caos e morte

Tal fama provoca a inveja e o ódio de seu irmão, Set, que decide seguir seus passos para desfazer suas realizações, provocar animosidade, contestar seu poder… 

Set dizia para quem quisesse ouvir: 

“Quem é ele para que você o ouça? Que cada um faça o que quiser!” 

Assim, a ilegalidade explode em toda a região e a ordem que Ausar traz para Kemet deteriora-se. Mas Set quer mais e assassina o irmão enquanto ele dorme, esquarteja seu corpo em 14 pedaços e os espalha por Kemet para que não possam ser encontrados. 

Quando Auset fica sabendo do assassinato de seu marido, parte para encontrar seu corpo e restaurar-lhe a vida. Ela viaja por todo Kemet e encontra quase todas as partes de Ausar – menos o pênis, lançado no rio Nilo. 

Amor

Mesmo assim, ela tenta restaurar-lhe a vida. Limpa cada pedaço do corpo do marido, unge-o com óleo e envolve-o em lençois. Sofre por seu amado, não apenas pela morte violenta, mas por os dois não terem consumado o casamento – Auset continuava virgem.

Ela usa magia para trazer o marido de volta, mas ele não é capaz de retornar à terra dos vivos – torna-se o deus do mundo dos mortos. Mas, ao ouvir os gritos da esposa durante a noite, em espírito, a visita e nove meses depois, Auset dá à luz a Heru, dotado com o espírito de seu pai.

Ausar, Auset e Heru
Ausar, Auset e Heru

Heru recebe a missão de derrotar seu perverso tio Set e restaurar a ordem no reino, como legítimo herdeiro de um Kemet unificado. Mas cresce sem que ninguém saiba que ele é um filho ungido. Mesmo assim, o jovem todo o tempo prega sobre o reino de seu pai e prepara seus discípulos para o dia da batalha contra as forças de Set.

Após o confronto, Heru não mata seu tio Set, mas o amarra em correntes e o lança em um abismo. Neste momento de vitória, ele se transforma em um falcão e é chamado ao céu para ficar diante de seu pai e dar testemunho.

Ausar, satisfeito, abençoa seu filho e o envia de volta à Terra para governar como o legítimo faraó de um Kemet unificado. 

Nenhuma coincidência

Qualquer semelhança não é mera coincidência, a Bíblia é repleta de histórias da mitologia africana, bem como as mitologias grega e romana.

Com o nascimento de Jesus, o tempo passa a ser contado como “antes e depois de Cristo”. Mas a narrativa que conta a história de sua mãe, Maria, e de como ela ficou grávida, está inscrita na Mitologia Africana, de antes da Era Comum. 

Confirmando:

Há mais de 5.500 anos, portanto, antes da Era Comum, nas paredes do Templo de Luxor, no Egito, já havia imagens da Anunciação, do Nascimento e da Adoração; de Hórus, com Thoth, anunciando à Virgem Ísis que ela conceberia Hórus; com Kneph, o “Espírito Santo”, engravidando a virgem, e com a criança atendida por três reis, ou magos, trazendo presentes.

Ísis amamentando a criança Hórus (Imagem: Brooklyn Museum)
Ísis amamentando a criança Hórus (Imagem: Brooklyn Museum)

Em outras palavras: a história Kemética dos negros Ausar, Auset e Heru existia antes de se tornar uma história de “pessoas brancas”, como Maria, Jesus e o Espírito Santo e ter inspirado inúmeras obras de arte, literatura e música; influenciado crenças e práticas de milhões de pessoas em todo o mundo.

Nos tempos modernos, a história de Ausar, Auset e Heru continua a ser celebrada e lembrada como um testemunho do poder duradouro do amor, da devoção e do espírito humano na construção de uma civilização com suas origens em Kemet, o Egito Antigo.

Assim conta a Mitologia Kemética Africana, em seu também chamado “Mito da Cosmogonia Kemética” – a título de esclarecimento, a cosmogonia busca explicar a realidade com base em mitos.

O joio e o trigo

Vale destacar, ainda, que na cosmogonia e na ciência africanas não existe culpa, não existe dívida a ser paga, nem fraude nem favor e, muito menos, a ideia de amor-sacrifício, de “Jesus morreu para nos salvar”… 

Como chama atenção o doutor em Filosofia e professor Renato Noguera, cada um dos personagens do mito representa um elemento do nosso psiquismo: 

“Set, deus do caos, representa o nosso desejo de poder e controle. Diante do medo, nosso desejo de prazer e satisfação se transforma em necessidade de controle. Desejo de poder e controle destrói a nossa conexão com a afetividade, nossa integridade, nossa capacidade de equilíbrio.”

Kemet, o Egito Antigo

A vida humana começa na Etiópia – como era conhecido todo o continente africano -, às margens do rio Nilo – ensina a escritora, professora, atriz, griot Zenaide Cecília Pereira, a Zenaide Zen

Kemet começa a se formar no final do período paleolítico, quando o clima árido do Norte da África e a desertificação do Saara, levam muitos africanos a se mudar e formar comunidades agrícolas no Vale do Nilo, em uma área que se estendia às margens do rio Nilo – desde a Núbia, Sudão, até o rio Eufrates. 

Kemet, Egito antigo

Estas comunidades, aos poucos, se unificam criando pequenos Estados que se transformam em um complexo formado por diversas nações que, juntas, representam a civilização com mais influência em sua época, amãe” de todas as civilizações modernas.

Evidências desse complexo datam de 4.000 anos antes da Era Comum (a.e.c), de acordo com achados da cultura Núbia/Kushita. 

Cobiça

Berço das civilizações, da matrigestão, da agricultura familiar, da educação com princípios, da arquitetura, da matemática, do respeito à ancestralidade, da vida e corpo sagrados, da complementaridade entre masculino e feminino, 

desperta curiosidade e interesse de estudiosos, a ponto de resultar na ciência conhecida como Egiptologia, que estuda a história e a cultura do Egito Antigo. 

Mas não só!

Jefferson Todão, em trecho do livro A Origem Africana da Matemática, se refere ao sentimento de cobiça que Kemet gerou no “coração” dos povos, ao contar que aquelas terras foram o território mais invadido da história antes e depois da Era Comum: : hicsos (1630 a.e.c.), assírios (664 a.e.c), persas (525 a.e.c.), macedônios (333 a.e.c.), romanos (50 a.e.c.), árabes (século VII e.c.), turcos (século XVI), franceses (1798) e ingleses no final do século XIX. 

Antes dos persas, houve invasões de ambos os lados com os núbios, no qual uma civilização influenciou a outra ao longo dos tempos. 

Marco zero

Tudo nasce na África. As primeiras civilizações nascem no continente africano. A civilização não surge na Suméria, no sul da Mesopotâmia. A escrita não nasce na Arábia ou na Europa. “Árabe”, aliás, significa nômade do deserto. As primeiras pessoas árabes são as pessoas pretas africanas do deserto do Saara

Os antigos gregos foram os que chamaram Kemet de Egito Antigo, mas as duas expressões representam identidades diferentes de um mesmo espaço – no período pré-dinástico, as culturas keméticas eram formadas pelas comunidades ribeirinhas ao longo do rio Nilo. Só depois começaram a se unificar e formar pequenos Estados.

A referência é a uma época milhares de anos antes da contagem do tempo baseada na religiosidade europeia. Povos “antes de Cristo” também refletiam sobre a vida. A filosofia, aliás, nasce com as pessoas comuns, não se limita ao Ocidente, às academias nem está ligada a um povo específico. Antes das nomeações gregas, existe história.

“Dois cadernos”

O filósofo sul-africano Mogobe Ramose nos ensina que a colonização europeia, em busca de protagonismo na história do mundo e da humanidade, se apoia em dois pilares: na ideia filosófica de que somente os seres humanos do Ocidente são, por natureza, dotados de razão, e na religião, com a fé no Deus encarnado – Jesus Cristo. 

Resgatar nossa história, pensar em um modelo e método educacional afrocentrado, olhar para um outro saber é o que propõe o filósofo estadunidense Molefi Kete Asante, teorizador do conceito afrocentricidade. Ele sugere a construção do que chama de “dois cadernos” – um de nossa autoria e outro de autoria ‘deles” (leia-se: os outros, os invasores), com as coisas que se aprende na escola.

Daí a ideia de educação para além da escola

Como cidadãos de origem africana espalhados pelo mundo não temos como abrir mão da escola da branquitude – este é o caderno imposto a nós. Mas as filosofias africanas ensinam que não é só a escola que educa, que ensina. 

Tudo ensina e temos de assumir esse protagonismo, como educadores, na vida do nosso povo, das nossas crianças.Todos somos professores porque todo mundo ensina, todo mundo constitui. Podemos, assim, oferecer um segundo caderno aos nossos, um outro modo de olhar a vida, de se perceber, se reconhecer. 

Nós, pessoas de origem africana nascidas no Brasil, somos o ponto de partida porque os que vieram antes vivem em nós. Somos corpos-território. Corpos-território porque nos tiraram tudo – religiosidade, família, cultura, liberdade… Corpos-território porque fomos arrancados da nossa terra, transplantados na América, e guardamos em nós os saberes africanos, querendo ou sem querer.

O resto do mundo só nos dará os créditos, quando nós mesmos, africanos e afrodescendentes, valorizarmos quem somos. É incoerente esperar que o outro nos respeite e nos valorize se nós mesmos não nos respeitamos nem nos valorizamos. 

E é neste cenário de voltar a vir a ser que se insere o antropólogo senegalês Cheikh Anta Diop. Sua pesquisa pioneira comprova a influência da matriz negro-africana em todo o mundo desde a Antiguidade, de Kemet.

A origem do ser

Cheikh Anta Diop contribui para o desmonte da perspectiva eurocêntrica da ciência ao fornecer evidências do conhecimento científico e filosófico fora do Ocidente e antes do Ocidente.

É ele quem defende – à exaustão – a tese de que Kemet (renomeada Egito pelos europeus) era um país negro e que o continente africano possuía uma identidade cultural comum.

Cheikh Anta Diop
Cheikh Anta Diop

Apesar de seu currículo primoroso, Anta Diop, ao longo de sua vida acadêmica, enfrenta muitas críticas e entraves para ter a sua tese de doutorado aprovada pela academia francesa.

É verdade que seu “campo de batalha” é o mesmo continente acusado, por ele, de ter criado teorias falaciosas” sobre a África e a origem do ser. Mas não seria diferente em nenhum outro lugar do mundo – na época, o cenário e a vida real negra se caracterizavam por grande repressão. A evolução humana acontece em espiral.

Um homem, muitas profissões

Diop se definia como o único preto africano de sua geração a ter recebido formação como egiptólogo e aplicado esse conhecimento em suas pesquisas sobre a história africana. Ele é o primeiro egiptólogo africano. 

E “mergulha” em Kemet, o Egito Antigo, por meio da egiptologia afrocentrada, um campo de pesquisa que inicia, com base na hipótese de que é uma civilização negro-africana, berço das culturas da África subsaariana – região composta por 47 países, localizada geograficamente abaixo do Deserto do Saara, também chamada de “África Negra”.

Sua formação acadêmica multidisciplinar – em Física, Filosofia, Química, Linguística, Economia, Sociologia, História, Egiptologia, Antropologia, além de diversas disciplinas como o racionalismo, a dialética, técnicas científicas modernas e arqueologia pré-histórica -, mostra-se fundamental para embasar suas pesquisas de vida inteira… 

As provas

Na História, por exemplo, ele argumenta sobre a validade de sua posição, a partir de uma série de considerações relativas às analogias entre as culturas subsaarianas e as do Egito Antigo, em termos de cor da pele, religião, proximidade linguística, sistema marital, organização social etc. 

A Antropologia lhe serve para a interpretação de dados sociais como o papel do matriarcado na formação das sociedades africanas, com a valorização do coletivo, da solidariedade material, no ideal de paz, justiça e bondade. Informações de ordem arqueológica levam-no a concluir que a cultura egípcia é uma cultura negra

No plano linguístico, considera em particular o idioma wolof, hoje falado na África Ocidental, que é foneticamente aparentado com a língua egípcia antiga.

Ele traduz partes da Teoria da Relatividade de Einstein em seu idioma nativo. A Física, aliás, é uma de suas fortes aliadas na defesa de sua tese – foram 15 anos dedicados à disciplina.

Exemplo para o mundo

Com todo o seu conhecimento, suas pesquisas convergem ainda para o fato de que a África Negra, especificamente o Egito Antigo, serviu de exemplo inspirador para o mundo em diversos aspectos, como um templo do conhecimento científico. 

É lá – nos solos negros e férteis da civilização do norte da África, concentrada ao lado do curso do rio Nilo – que nasce o primeiro centro de altos estudos, onde são desenvolvidas a escrita, arquitetura, a medicina, a agricultura, a literatura, os conhecimentos astronômicos, matemáticos, as ciências… 

Tudo vem de Kemet… a metalurgia, as filosofias, as primeiras invenções… As primeiras matemáticas… Foram mulheres africanas que contaram as fases da lua a partir do seu ciclo menstrual. Os gregos adquiriram todo o conhecimento em Kemet. O filósofo e matemático Pitágoras ficou 15 anos por lá, estudando.

Casas da Vida, um sistema de ensino

Naquele tempo, 3.100 anos antes da Era Comum, havia um modelo de mundo associado à Maat, deusa que simboliza o sistema de equilíbrio da realidade, águas primordiais; o feminino para além do gênero, princípio vital; sinônimo de ordem, justiça, ética, retidão…

As pessoas compreendiam que precisavam estar em equilíbrio constante, o que implicava um modo de ser, de estar na vida, de comportar-se. Até porque nos reconhecíamos, pessoas negras, como protagonistas nas Ciências, na Tecnologia, na Medicina, na Arquitetura

Entre os ensinamentos ministrados encontravam-se, ainda, Astronomia, Matemática, Doutrina Religiosa e Línguas Estrangeiras. Conhecimentos que tornaram-se importantes durante o Império Novo devido ao cosmopolitismo da era, marcada pelo domínio do Egito sobre uma vasta área que ia da Núbia até o rio Eufrates.

Ankh
Ankh

E tudo era aprendido nas Per Ankh, nas “casas da vida”, em Kemet, instituição dedicada ao ensino no seu nível mais avançado, funcionando também como biblioteca, arquivo e oficina de cópias de manuscritos

Infância

As crianças chegavam nas Per Ankh bem pequenas e ficavam até os 7 anos de idade em silêncio. Não que fossem silenciadas, mas por quererem desfrutar daquele espaço de saber não hierárquico. 

Na opinião da doutora em Filosofia Katiúscia Ribeiro, isso acontecia devido à conexão com a ancestralidade e a espiritualidade, uma vez que as crianças haviam acabado de chegar. Quer dizer, elas estavam retroalimentadas e, por consequência, mais conectadas com o mundo ancestral.

Após 7 anos, as crianças ficavam mais 35 anos aprendendo todos os ofícios e, só então, retornavam para as suas comunidades, conhecendo profundamente o código de leis na vida do Egito, as 42 leis de Maat.

As 42 leis de Maat (Imagem: Reprodução)
As 42 leis de Maat (Imagem: Reprodução)

Detalhes

Toda cidade mediana tinha uma Per Ankh e os keméticos mantinham um alinhamento natural com a ancestralidade. Em outras palavras, a harmonia da vida era um valor supremo e incluía o respeito a todos os seres viventes (não só os humanos).

Havia, ainda, alguns detalhes bastante simbólicos nessas casas. A localização geográfica das Per Ankh, por exemplo, era determinada pelo sol para que todos se sentissem iluminados dentro delas.

Os escribas também eram escolhidos por sua iluminação. E trabalhando nas Casas da Vida tomavam títulos como “Servidores de Rá” ou “Seguidores de Rá” – é o deus solar egípcio, aquele que dá a vida. Assim, o título estava associado à ideia de que os escribas seriam, eles próprios, transmissores de vida

Didática

Nas Per Ankh, oferecia-se a síntese de todo aprendizado. E isso só era possível a partir do amor à vida como princípio – uma ética individual que pressupõe uma ética coletiva, que leva ao respeito mútuo

Entre as estratégias de transmissão de conhecimento, a contação de histórias do território, o conhecer das coisas… Entre os ensinamentos, a lapidação da palavra, a responsabilidade pelo que se diz.

“A palavra encaminha para a vida. Cada um fala por si e também como presença da ancestralidade. Nós só passamos à frente o saber da ancestralidade.”

O Ocidente destrói a relação com a palavra, que é considerada sagrada como o sopro ancestral, o fluxo vibracional, o axé, a força vital, o nosso caminho para o alinhamento cósmico.

O existir

Para os keméticos, nós somos co-criações – seres materiais e espirituais, matéria e espírito em diálogo permanente

“Cada um de nós é a própria experiência espiritual”, ensina a professora Katiúscia. “Filosofia africana é entender que somos seres espirituais, regentes do nosso caminho. A ideia do corpo-território é, também, porque o corpo é a morada da espiritualidade”.

E ela vai além em sua análise, entendendo que “a nossa eterna busca por existir tem a ver com essa separação imposta pelo Ocidente”, com a ideia do pensar e do sentir como realidades apartadas.

Mas, a nosso favor, ainda pelo olhar da acadêmica, está o fato de a colonização não ter triunfado por completo:

Ela colonizou a nossa racionalidade, mas não o nosso coração. E nós pensamos com o coração, a morada do nosso espírito, que fala com a gente o tempo todo. Por isso, também, mesmo com tanta violência, a gente ressurge!”

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Fontes: Afrocentricidade, Letras, Katiúscia Ribeiro, vídeo O futuro é ancestral, e-book Ancestralidade Africana, de Abiola Akande Yayi, Afrokut, The African Explorer Magazine, Afrika Woke, The African Gourmet, curso “Filosofias africanas – passado, presente e futuro (ancestral)”, com Renato Nogueira e Katiúscia Ribeiro, em 16/7/2023

Escrito em 08 de outubro de 2025

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