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Morte, a vida que segue

A perspectiva africana de compreender a morte, como aquela que permite a continuidade do existir. 

O que este artigo responde:
• Como a perspectiva africana compreende a morte de forma diferente da visão ocidental?
• Qual é o papel da morte nos ciclos naturais e na continuidade da vida?
• O que é o cosmograma Dikenga do povo bakongo e como ele representa o tempo?
• Como as quatro fases do Dikenga (Musoni, Kala, Tukula, Luvemba) se relacionam com os ciclos da vida?
• Por que a morte está posicionada ao lado do nascimento no cosmograma bakongo?
• O que significa a “represa do tempo” na filosofia bakongo
• Como a Terapia Kula aborda a saúde mental do povo preto?

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“…Já tive que carregar centenas de vocês quando a Doença e Fome saiam pela porta riscando mais um trabalho da lista.

Eu já segurei a mão de vocês enquanto alguém soltou pra chamar um médico.

Eu vi vocês lutarem guerras alheias, defender tesouros de outras nações e quando a força acabou eu levei cada um.

Eu devolvo o ar quando alguém os pisa e sufoca, eu faço a queimação parar quando atiram em vocês…”

(trecho do texto intitulado “Morte é pra quem fica”, uma carta da Morte, para o povo preto, de Zezi Masomakali)

As linhas acima – apesar da tristeza e do peso das palavras – refletem a perspectiva africana de compreender a morte, como aquela que permite a continuidade do existir

É interessante pensar a respeito da morte. É até confuso para as pessoas  que carregam uma perspectiva ocidental da morte, como o fim de tudo, uma vez que nada pode ser visto, provado, certificado… Mas a natureza se manifesta em padrões

Tudo que se encontra no micro, há de se encontrar no macro, e com a morte não é diferente. Os cogumelos, por exemplo, são organismos decompositores que crescem em árvores mortas e desempenham papel fundamental na natureza ao quebrar matéria orgânica morta, como plantas e animais em decomposição, liberando nutrientes essenciais de volta ao solo, para que outras plantas e outros organismos consigam dar continuidade à própria vida. 

O mesmo se dá com a nossa alimentação. É necessária a morte de verduras, legumes e gramíneas para que a vida de quem se alimenta continue. Um ciclo se estabelece e o que permite que este  ciclo não tenha fim é uma morte próspera que forneça continuidade. 

O povo bakongo –  um grupo étnico Bantu que vive na costa atlântica de África – possui uma tecnologia ancestral, um cosmograma do tempo, chamado Dikenga. Nele, o tempo é dividido em quatro partes dentro de  um círculo que espelha o movimento do sol.

Dikenga, o cosmograma bakongo (Imagem: Reprodução)

As quatro partes são chamadas: Musoni (Nascimento), Kala (crescimento), Tukula (amadurecimento) e Luvemba (morte). E o que chama atenção é que Luvemba, a morte, mora do lado de Musoni, o nascimento.

Qual é a leitura que se faz deste encontro entre a morte e o nascimento? De entrega da “herança” do tempo vivido e que os bakongos chamam de “represa do tempo”, referindo-se a tudo que é possível se aproveitar para um novo percurso do sol, uma nova vida. Para os bakongos,  cada ser vivente é  um Sol vivo e faz o mesmo percurso: nasce, cresce, amadurece, morre, nasce…. 

E aprendemos o mesmo nos versos do mestre Antônio Bispo dos Santos, o filósofo quilombola Nego Bispo:

 “Nós somos o começo, o meio e o começo. Existiremos sempre, sorrindo nas tristezas para festejar a vinda das alegrias. Nossas trajetórias nos movem, nossa ancestralidade nos guia.” 

Não há fim na ciclicidade se o ciclo ainda for nutrido e estiver em movimento. A morte torna isso possível. Se só houvesse vida, viveríamos em linearidade, de forma limitada e acumulativa. A partida e a chegada estariam demarcadas.

O infinito só existe pela ciclicidade. E a ciclicidade só existe pela construção e destruição. Ou seja, a morte também é responsável pela ciclicidade e consequentemente pelo infinito.

O recurso na natureza em si é limitado, mas quando bem aproveitado, de forma cíclica, se torna ilimitado e acessível a todos: aos que ficam, aos que vão e aos que retornam.

Isso não faz, na perspectiva africana, a morte ser necessariamente desejada ou necessariamente apartada. A morte é da família. É a parente que acolhemos quando chega, agradecemos quando vai, que às  às vezes chamamos para um café, às vezes desejamos que chegue próspera em outros lugares, e que nos deixa tristes quando chega “fora de hora”, como nos casos de assassinatos, por exemplo.

Mas, alinhados à  perspectiva de que a morte não pode ser controlada, vamos enxergar que sempre existe algo para justificar a sua presença, mesmo que de forma dura e amarga.

A energia da morte é uma energia negativa, mas importante. É uma energia que limpa, leva embora toxinas acumuladas, cheiros ruins, e traz tristeza para quem fica. Negativo não é sobre ser ruim, é somente uma parte que não se pode demorar por muito tempo.

Não é à toa que negativo com negativo dá positivo. Não é à toa que só depois do caos vem uma nova ordem. O negativo vem para abrir caminhos. Mas quem caminha é o positivo. É quem está vivo.

A morte não é vilã. Ela cuida dos nossos mais velhos, cuida de quem retorna, seja porque motivo for.

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Escrito em julho de 2025

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