Com cantos, palavras de ordem e uma força coletiva pulsante, a mulheridade negra reafirma seu papel central na construção do país.
Terça-feira, 25 de novembro de 2025. Centenas de caravanas vindas de todas as regiões do Brasil, além de países da América Latina, Caribe e África chegam à capital federal do Brasil para a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.
Uma mulher negra inflável, de 14 metros, com uma faixa presidencial onde se lê “Mulheres Negras Decidem” conta do tamanho do desafio e da grandeza da proposta para mudar o país. Brasil.
É um dia histórico para as mulheres negras e, também, mais um dia de luta porigualdade, visibilidade, direito de existir, força, potência, representatividade… É um marco de mudança da vida do povo preto do Brasil nas áreas de educação, saúde, trabalho, habitação digna…
Estimativas falam de 200, 300, 500 mil pessoas tomando a Esplanada dos Ministérios. Mas o que deve ficar para a história é que no dia 25 de novembro de 2025 se fez ouvir a voz, o canto, a dança e a consciência da mulheridade afrodescendente em um dos maiores atos de mobilização de mulheres negras da história recente.

No começo da manhã, teve coletiva, leitura do manifesto (link no final do arquivo) e sessão solene no Congresso Nacional com as deputadas Benedita da Silva e Talíria Petrone. Às 11h, a Esplanada dos Ministérios virou um mar de mulheres negras, guerreiras sem armas, com as que vieram antes.
Quem são elas? Guerreiras quilombolas, indígenas, ribeirinhas, do campo e da cidade, urbanas, periféricas, acadêmicas, artistas, trabalhadoras, meninas, mães, jovens, anciãs…
A luta continua!
“Nós, mulheres negras, não merecemos ficar o tempo inteiro no final da fila e sermos tratadas, nessa sociedade, como segmento que pode esperar, que tudo para a gente fique para depois.
Temos pressa, temos urgência!”
(Quem avisa é Cláudia Vieira, do Comitê Nacional da Marcha)
A Bandeira do Brasil da Marcha é diferente: no lugar de “Ordem e Progresso”, “Mulher Negra na Justiça, Já”, para que o Estado brasileiro entenda, de uma vez por todas, que é importante, necessário, é dever olhar e cuidar da população negra.
É fato que o governo federal se fez presente por meio de sua ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco – “simbolizando a ponte entre o movimento e o Estado” -, o que, na prática, não significa muito. A sabatina do advogado-geral da União, Jorge Messias – o homem branco indicado por Lula para tomar assento no Supremo Tribunal Federal – acontece em 15 dias no Senado.

A mesma lógica vale para o Poder Legislativo. Benedita da Silva (PT-RJ) em sessão solene, fez homenagem à Marcha do Plenário da Câmara, e acompanhada da também deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) participou da caminhada. A questão prática, em se tratando de parlamentares em geral, é que eles – maioria de homens brancos – legislam em causa própria.
O que os olhos vêem
Um tapete, com incontáveis fotos de vítimas da violência em favelas do Rio de Janeiro nos últimos anos, ocupa metros do chão da concentração da marcha. Cada rosto, uma história, um caso de violência.
A fala, vem de um estado vizinho, do litoral paulista, mais especificamente da Baixada Santista:
“Historicamente, no Brasil, a herança do processo de escravização é a perseguição, o controle e a eliminação de corpos negros.”
A denúncia é de Daniela Augusto, do Movimento Mães de Maio na Baixada Santista. Para ela, o Estado brasileiro é o primeiro violador dos jovens negros.
Ela se refere às vítimas de uma série de chacinas e assassinatos, em 2006 – entre 450 e 600 pessoas -, uma maioria de jovens negros, pobres e moradores de periferias:
“Aqui na marcha, em todos os espaços que a gente ocupa, lutamos contra a ideia de que nossos corpos são rentáveis, são utilizáveis ou são objetos de violência, do Estado, ou seja, do machismo, perpetrado especialmente pelos homens”.
Várias pautas
A professora Maria Edna Bezerra da Silva, da Universidade Federal de Alagoas, reconhece o valor das cotas nas universidades e dos concursos públicos, mas participa da marcha para reivindicar o aumento da docência negra em instituições de ensino superior:
“Embora tenhamos avançado em uma política de cota para estudantes, os docentes ainda são muito poucos dentro das universidades. Ainda não temos, de fato, uma igualdade, uma paridade em número de professores e docentes negros nas instituições”.

(Imagem: Divulgação/AMMA Psique e Negritude)
Centenas de mulheres se manifestam na marcha para ir além do aspecto histórico de resistência e de segurança alimentar – elas se reconhecem como guardiãs de território e da biodiversidade. Mas consideram importante que haja a valorização dos quilombolas, bem como a garantia dos direitos territoriais e combate ao racismo.
“É importante a gente mostrar para o mundo a nossa presença, a nossa existência (…) somos demandantes de direitos, cuidadores da riqueza do Brasil. Portanto, a dívida que os estados têm com o povo quilombola precisa ser levada em consideração”.
– Aparecida Mendes, do território quilombola Conceição das Crioulas, no segundo distrito de Salgueiro, em Pernambuco
A organização das mulheres afro-brasileiras, afro-latinas e afro-caribenhas reafirmam, em Brasília, a luta pela vida sem violência, pela igualdade plena de direitos e oportunidades, pautas inegociáveis para a construção de um futuro mais justo e democrático.
“Nós precisamos nos juntar e fazer o Brasil inteiro escutar que merecemos ser respeitadas. Essa é uma luta não somente pelos nossos antepassados, mas também para a nossa geração futura.”.
– Gabriela Mattos, 21 anos, estudante de psicologia
A Reparação e o futuro
A Marcha 2025 destaca, ainda, que não há reparação sem memória. O reconhecimento dos danos estruturais gerados pela colonização e pela escravização, assim como dos lucros acumulados por séculos de exploração, é passo indispensável para a construção de uma sociedade democrática e verdadeiramente igualitária.

O Brasil, maior país negro fora da África e último das Américas a abolir formalmente a escravzação, segue atrasado na adoção de medidas de justiça reparatória.
“Reparar é pressuposto básico e indispensável para a construção da sociedade de Bem Viver. E este que é o nosso paradigma utópico, mas sobretudo nosso farol para marcharmos em direção ao futuro que desejamos para todas as pessoas…”
As palavras acima estão no manifesto – completo no link abaixo -, mas que se destaque que tal reivindicação, tal exigência, não acontece agora, pela primeira vez. A 2ª Marcha das Mulheres Negras deixa sua marca na história ao reafirmar que a luta por Reparação Histórica e Bem Viver segue viva — e conduzida por quem há séculos sustenta o país.
Para não esquecer
Que reverberem, ecoem, em em todos os ouvidos, as muitas falas da Marcha:
“Nunca mais uma política sem nós!
Nunca mais uma sociedade que nos veja como subalternas e inferiores!
Mulheres negras no centro das decisões para um Brasil mais justo e igualitário!”
“Pedimos paz, pedimos equidade, pedimos respeito, respeito à dignidade das pessoas, respeito à dignidade das pessoas negras.”
Leia aqui o Manifesto das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver na íntegra.
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Registre-se: uma comitiva levou as demandas da Marcha ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, por uma juíza negra – mas quem decide é o presidente da República e, até agora, nenhum teve coragem e/ou consciência para fazê-lo.
O dia terminou com shows de Luana Hansen, Prethaís, Célia Sampaio e Núbia, Ebony e Larissa Luz cantando o “hino” do movimento:
“Mete marcha, negona”.

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Fonte: Agência Brasil, Metropoles, Inesc, Alma Preta, Marcha das Mulheres 2025
Escrito em novembro de 2025

