Mulheres negras de todas as regiões do Brasil estão em movimento, organizando a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, marcada para o dia 25 de novembro de 2025, em Brasília.
Por Juliana Gonçalves
Reparação é o acerto de contas.
Bem Viver é o caminho.
A mobilização para a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver acontece dez anos após a 1ª Marcha Nacional das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, um marco histórico e político na luta por justiça racial e de gênero.
Fato histórico, realizado em 2015, reúne cerca de 100 mil mulheres na capital federal, em Brasília, e inspira ações em diversos cantos do país e do mundo.
Leia mais sobre a Marcha das Mulheres Negras de 2015 no final deste texto.
Seus efeitos reverberam ao definir agendas de atuação política para o período de 2015 a 2025 e, sobretudo, ao anunciar um novo projeto de sociedade centrado no Bem Viver — um horizonte coletivo para toda a população brasileira.
O que é o Bem Viver?
Minha pesquisa, “O Bem Viver em Narrativas de Mulheres Negras”, desenvolvida no Programa de Estudos Culturais da Universidade de São Paulo, que ouviu 17 mulheres negras ativistas, revela que o conceito do Bem Viver — muitas vezes associado exclusivamente às experiências indígenas — também é elaborado por mulheres negras, a partir de suas vivências e saberes.
O Bem Viver que emerge das narrativas dessas mulheres propõe um modelo de governança baseado na ancestralidade, na escuta, na coletividade e no cuidado com os territórios.
Bem Viver é um antídoto contra o projeto genocida que insiste em nos silenciar . Bem Viver é horizonte, mas também prática política. É o cuidado como ato radical. É um modo de vida que se opõe à lógica da violência e do extermínio.

E isso passa por reconhecer que as mulheres negras não são apenas vítimas em estatísticas — somos construtoras de respostas concretas, que precisam ser reconhecidas e fortalecidas pelo Estado.
O Bem Viver também é uma crítica ao modelo capitalista que sustenta a pobreza da maioria negra e feminina. É uma proposta que valoriza a economia solidária, o cooperativismo, a soberania alimentar e o fortalecimento das redes comunitárias.
Na minha dissertação, defino assim:
“O conhecimento que emerge de memórias antigas. Aprendizados fincados em práticas comunitárias. ‘Bem Viver’ é um nome recente usado para conceitualizar a cosmovisão de comunidades tradicionais que se organizavam a partir do coletivo. É um modo de vida que abarca a relação entre as pessoas, a natureza e o modelo econômico em sociedades que não tinham no capitalismo o único modo possível de se organizar.”
Bem Viver é um conceito amplo e generoso, com raízes profundas em inúmeras comunidades tradicionais. Bem Viver é aquilombar. É fortalecer a economia local do nosso bairro. É saber ouvir a própria intuição. É a certeza de que nossos passos vêm de longe — e juntas, mais longe chegaremos.
Bem Viver é pedir licença para pisar no chão indígena, preto, quilombola e amefricano. É saber que dentro de uma árvore pode morar a mãe de uma divindade. O Bem Viver aponta caminhos para o que vem depois do caos. Está na prática do autocuidado e do autoamor que, para mulheres negras, é um ato de guerra política — como nos ensina a escritora e filósofa americana Audre Lorde.
Na Carta das Mulheres Negras de 2015, documento entregue à presidenta Dilma, estão expressas diversas reivindicações que traduzem o Bem Viver em políticas concretas:
• Garantir a preservação, proteção, demarcação, homologação e registro incondicional das terras quilombolas, indígenas e de outros povos tradicionais
• Implementar a reforma agrária e urbana com prioridade para o povo negro e indígena
• Promover justiça ambiental, defender os bens comuns e combater a mercantilização da vida
• Reparar e indenizar populações — especialmente mulheres negras — afetadas por megaprojetos, mineração, barragens e desastres ambientais
• Enfrentar o genocídio do povo negro
• Assegurar o direito ao cuidado, ao tempo livre, ao descanso e à saúde mental
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O Bem Viver está presente nos terreiros, nos quilombos, nos territórios indígenas e na solidariedade presente nas periferias. Ele se revela na possibilidade de ter tempo para si e para os outros, de comer comida de verdade, livre de veneno, de construir economias baseadas na solidariedade e não na exploração, e de reconhecer o cuidado como prática política, coletiva e radical.
É nesses gestos cotidianos, sustentados por mulheres negras em todo o país, que um outro projeto de sociedade já pulsa — um projeto onde a vida vale mais que o lucro, e onde a dignidade não é exceção, mas ponto de partida.
Reparação
Ousadas que são, as mulheres negras hoje não falam apenas de Bem Viver — elas exigem Reparação. Exigem o reconhecimento de que o Brasil foi erguido sobre o sangue e o trabalho dos nossos ancestrais, e que essa dívida histórica ainda não foi paga. O tão sonhado “dia seguinte”, 14 de maio, ainda não chegou. Vivemos uma abolição inconclusa.
Como bem pontua Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra e integrante do Comitê Impulsor Nacional da Marcha 2025:
“Não se repara vidas, mas é preciso assegurar que as futuras gerações desses que foram escravizados não vivenciem tanta miséria, considerando que há uma superexploração que precisa ser compensada.”
O debate público trazido à tona pelo plebiscito popular por Justiça Econômica e Bem Viver, em votação até setembro de 2025, está diretamente relacionado às elaborações que o Movimento de Mulheres Negras têm feito há anos.
Quando falamos sobre o fim da Escala 6×1, por exemplo, não estamos discutindo apenas organização do mercado de trabalho. Estamos falando sobre garantir tempo livre, direito ao lazer, ao descanso — ou seja, nossa existência para além do trabalho. Isso é Bem Viver. E sabemos que, majoritariamente, quem sustenta essa escala são corpos negros.
Da mesma forma, ao defender a taxação dos bilionários, falamos de Bem Viver coletivo, que exige justiça fiscal e combate às desigualdades e de reparação histórica — porque essas fortunas se acumularam e seguem crescendo às custas da exploração dos nossos corpos, territórios e trabalho. A exploração que fundou o Brasil segue enriquecendo seus herdeiros até hoje.

Reparação e Bem Viver são projetos de presente. São horizontes na disputa por outro modelo de sociedade com justiça econômica e direito à memória. Quando dizemos que marchamos por Reparação e Bem Viver, dizemos que não aceitamos mais sobreviver. Dizemos que queremos o futuro agora. Dizemos que nossos filhos merecem outro mundo.
Na prática, Reparação e Bem Viver se traduzem em acesso a direitos, redistribuição de renda e terra, cuidado, memória, autonomia e tempo. Traduzem-se em política feita com afeto, em economia feita com respeito, em uma cidade feita com a escuta da sua população.
E mais do que isso: são práticas já vivas nas mãos de mulheres negras que sustentam este país.
Reparação é o acerto de contas.
Bem Viver é o caminho.
Marchamos por ambos.
A 1ªMarcha Nacional das Mulheres Negras, um marco
A Marcha Nacional das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver de 2015 é o maior ato de participação popular protagonizado por mulheres negras na história recente do Brasil, um marco histórico e político na luta por justiça racial e de gênero.
Ao reunir cerca de 100 mil mulheres na capital federal, em Brasília, evidencia a centralidade de nossas vozes na construção de agendas políticas de enfrentamento ao racismo patriarcal e às desigualdades, além de afirmar uma visão de sociedade baseada na coletividade, no cuidado e na transformação social.
Deixa marcas profundas na história política do país, fortalece o debate sobre democracia representativa e amplia as possibilidades de participação política das mulheres negras em diversos níveis institucionais.
Em escala internacional, contribui para o aumento da presença de brasileiras negras em espaços globais de incidência política, consolidando uma atuação transnacional. Afirma-se como força de resistência, ao produzir narrativas e estratégias contra o conservadorismo, o fascismo e as investidas antidemocráticas, em um contexto de crescentes ameaças aos direitos.
As mulheres negras ativistas ouvidas na minha pesquisa, “O Bem Viver em Narrativas de Mulheres Negras”, relataram que, ao chegar à Esplanada dos Ministérios, em Brasília, foram recebidas com tiros disparados por um acampamento militar que pedia a volta da ditadura. Era o prenúncio de um tempo sombrio. Mas foi ali também que a reivindicação do Bem Viver ganhou corpo e sentido.



Excelente! Lo difundiré. Muchas gracias.