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Rosetta Tharpe, a mãe do rock

A cantora, compositora e guitarrista americana é fundamental para o rock. Mulher negra, cristã, bissexual, com sua música, mistura o sagrado, o profano, enfrenta a segregação racial e se torna a primeira cantora gospel a chegar ao Top 10 da Billboard.

Sister Rosetta Tharpe, a mãe do rock (Imagem: Reprodução)
Sister Rosetta Tharpe, a mãe do rock (Imagem: Reprodução)

O que este artigo responde: Quem é Rosetta Tharpe? Qual é o pioneirismo de Rosetta Tharpe?Por que Rosetta Tharpe é considerada a mãe do rock? Rosetta Tharpe é bissexual? Quantas vezes Rosetta Tharpe se casou? Como morreu Rosetta Tharpe? Em que época Rosetta Tharpe viveu? Quem criou o rock foi uma mulher negra? Quem foi a primeira pessoa a tocar rock?

Sister Rosetta cria um estilo próprio ao misturar blues, jazz e gospel. Seu som, voz e presença de palco desafiam as convenções sociais e musicais das décadas de 1930 e 1940 e a destacam, ainda mais, como uma negra revolucionária, figura de poder que confronta os preconceitos do seu tempo.

Ao nascer no dia 20 de março de 1915, em Cotton Plant, Arkansas, às beiras do rio Mississipi, é batizada como Rosetta Nubin, filha de Katie Bell e Willis Atkins, colhedores de algodão.

Do pai, Rosetta ficou com a música – ele cantava; da mãe, com a fé. Katie era evangélica, abandonou o marido e, junto com a filha, de seis anos, se tornou viajante da igreja de Deus em Cristo.

Milagre e $$$

Apelidada de “Little Rosetta Nubin, o milagre que canta e toca guitarra”, a menina acompanha sua mãe, que tocava bandolim, nos cultos pelo sul dos Estados Unidos. Na época, com 10 anos, Rosetta já brincava com as cordas do violão e dedilhava nas teclas do piano .

Aos 19, a jovem se casa com o pastor Tomas Thorpe, em uma união arranjada por sua mãe. Um erro do escrivão, entretanto, troca as letras “o” por “a” e ela passa a se chamar Rosetta Tharpe. Os dois trabalham na igreja, mas é ela quem atrai grandes públicos com o seu cantar, enquanto o marido prega no púlpito.

Em 1938, ela termina o seu casamento e muda para Nova York com a mãe – a pessoa mais presente em sua vida até 1968, ano em que morre.

Além do templo 

Solteira, Rosetta Tharpe começa sua carreira fora da igreja. Assina contrato com a gravadora Decca Record, lança o disco Rock Me e se apresenta no Cotton Club, uma casa noturna de e para brancos.

Entre os anos 1940 e 1950, a cantora atrai multidões em suas turnês em igrejas, clubes noturnos e teatros. Sua capacidade de misturar ritmos, sem perder a essência da mensagem gospel, a diferencia dos outros artistas do seu tempo e abre portas.

Sister Rosetta Tharpe canta e toca com Muddy Wtares em Manchester, Inglaterra (Imagem: Reprodução)
Sister Rosetta Tharpe canta e toca com Muddy Wtares em Manchester, Inglaterra (Imagem: Reprodução)

Rosetta se apresenta em palcos não tradicionais para músicos gospel, como o Carnegie Hall em Nova York, e a sua popularidade aumenta quando começa a colaborar com outros nomes da música.

Parceiros

Em parceria com Sammy Price, a artista lança Strange Things Happening Every Day, considerado a primeira gravação de rock’n’ roll da história. É com essa música que ela se torna a primeira cantora gospel a chegar ao Top 10 da Billboard. Isso, em 1944!

Por conta do contrato de sete anos com a gravadora Decca Records, Rosetta não tem liberdade de escolher o próprio repertório e é obrigada a interpretar canções que não se referem às suas verdades. Assim, nasce outro de seus sucessos, I Want A Tall Skinny Papa.

A música repete várias vezes: “eu quero um papai alto e magro, e é tudo que preciso”, uma mensagem que não tem nada a ver com ela, com sua fé cristã, sua história familiar, mas que a coloca na indústria da música.

Com 25 anos, Rosetta Tharpe faz parte do show bussiness, é rica, famosa, independente, mas continua preta…

“Separados, mas iguais”?!

Um conjunto de leis promulgadas principalmente no sul dos Estados Unidos – entre as décadas de 1870 e 1960 – institucionalizaram a segregação racial em quase todos os aspectos da vida, incluindo escolas, transporte público, restaurantes, hotéis, teatros e até mesmo bebedouros e banheiros públicos.

Conhecidas como leis Jim Crow, elas decretavam a separação – “separados, mas iguais” – , o que significava que as instalações para brancos e negros eram legalmente separadas, mas deveriam ser de qualidade igual… Só que não era assim…

Artistas afro americanos não podiam usar a porta da frente de casas de show. Para eles, só era permitida a entrada pela porta em que tivesse a placa “Pessoas de Cor”, a porta dos fundos.

Sister Rosetta Tharpe (Imagem: Reprodução)
Sister Rosetta Tharpe (Imagem: Reprodução)

E é enfrentando este tipo de humilhação que Rosetta Tharpe vai para a estrada, com diferentes quartetos gospel formados por homens brancos, cumprir sua agenda de shows.

Houve situação em que ela teve de pedir que os meninos Jordanaires, que a acompanhavam, trouxessem um prato de comida para ela se alimentar durante a viagem de ônibus.

Amor livre

No ano de 1946, cansada das turnês com quartetos, começa a se apresentar com a cantora Marie Knight, alguém como ela. Juntas, as duas assinam a música Up Above my Head, combinando a intensidade do gênero cristão com a vitalidade do blues.

Companheiras de estrada na vida, as duas dividem o palco – uma no piano e a outra na percussão – e a cama até 1951, quando Rosetta recebe uma proposta inusitada: dois promotores da música gospel querem que ela se case durante um show no Griffith Stadium, em Washington, demolido em 1965.

Ela aceita o acordo – só não tinha o noivo! Problema resolvido semanas antes da data do casório, quando ela conhece o ator Russel Morrison.

E o Reverendo Kelsey pergunta para as 25 mil pessoas que lotavam o estádio, se alguém ali tinha alguma objeção ao casamento. Mas o que se ouve como resposta é a noiva perguntando ao futuro marido: 

“Você tem uma aliança, Russel?”

A plateia cai na gargalhada, é contida. O Reverendo anuncia a união dos dois artistas, Rosetta pega sua guitarra e começa a cantar naquele que se tornou o maior casamento registrado na cidade de Washington e um dos primeiros shows em estádio da história da capital americana.

Esse tal de rock… 

Chuck Berry é considerado o pai do rock, posando com guitarra elétrica em 1957. Mas a mãe do rock, Rosetta Tharpe, nasceu antes, brilhou antes. Só que nem Rosetta nem Chuck, pessoas negras fundamentais, na criação deste gênero musical tiveram reconhecida a sua importância.

O rock se tornou popular nos Estados Unidos quando um homem de origem branca cantou o gênero, Elvis Presley. De origem pobre, Elvis cresceu no Tennessee e também cantava na igreja.

Quando se quer definir o gênero musical, diz-se que o rock surge a partir da combinação de vários estilos musicais, como o blues, o country, o rhythm and blues (R&B), o folk, o jazz e a música clássica.

Como não referenciar Rosetta Tharpe que, no fim dos anos 1950, não lançava mais tantas músicas e caminhava para o final da carreira…

Resgate

Chris Barber, trombonista de jazz, britânico, fã de Rosetta, fez isso em 1957 ao convidá-la para uma turnê na Europa. E ele comenta a experiência:

“Sua guitarra por si só era tão alta quanto a minha banda inteira. Foi apaixonante, totalmente fascinante.” 

Até então, o público britânico via o blues e o gospel apenas por imitações brancas. Com a turnê de Rosetta, pela primeira vez, eles tiveram contato com a música de verdade, o que fez Rosetta renascer como estrela e expandir sua influência em um novo continente.

Em 1964, ocorre outro show incomum e icônico da artista em uma estação de trem desativada, com o palco montado em uma plataforma e o público na outra, separados pelos trilhos. A cantora, que está acostumada a limusines, chega ao palco em uma carruagem.

Partida

Rosetta mantém sua preferência por temas religiosos em suas canções e perde popularidade com o surgimento de novos músicos brancos. Mas é a saúde que abrevia a sua história.

Em 1970, ela tem um derrame, que a afasta dos palcos. Passados dois anos, ela tem de amputar uma das pernas, devido a diabetes.

No dia 9 de outubro de 1973, aos 58 anos, Rosetta Tharpe morre e é enterrada na Filadélfia como indigente. Sua carreira, repleta de momentos históricos, cai no esquecimento.

Visibilidade póstuma

Em 2008, 35 anos após a sua morte, é construída uma lápide em seu nome, paga com fundos arrecadados em um show beneficente.

No ano de 2018, Rosetta é celebrada como “A Madrinha do Rock”, e colocada no Hall da Fama do Rock n´Roll, no museu de Cleveland, Ohio.

Mas Rosetta é a Mãe do Rock, pioneira em sua técnica de guitarra, uma das primeiras artistas populares a usar distorção pesada.

Sua música mudou o mundo. Mas falta reconhecimento. Nas pesquisas relacionadas ao ritmo musical, quando lhe perguntaram sobre música no final da década de 1960, ela declarou:

 “Oh, essas crianças e rock and roll – isso apenas acelerou o rhythm and blues. Eu venho fazendo isso desde sempre”.

Vale saber que entre as crianças, as quais Rosetta se refere, estão, além de Chuck Berry e Elvis Presley, B.B King, Bob Dylan e Johnny Cash, todos inspirados pela sua música.

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Fontes: RollingStone.com, DimitriVieira, Elle, Antena1, RadioRock, RollingStone-br, Estado de Minas, Wikipedia, Alma Preta

Escrito em 24 de outubro de 2024

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