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Xica Manicongo, a travesti pioneira e o medo branco

Traficada do Congo, no continente africano, batizada como Francisco pela Igreja Católica, ela se recusa a vestir roupa de homem. Acusada de heresia, é julgada pelo Santo Ofício e condenada a ser queimada viva. Passados cinco séculos, vira enredo de escola de samba, ganha vida no corpo da deputada federal Érika Hilton e a faixa de Presidenta da República.

Retrato falado de Xica Manicongo (Imagem: M. Galindo)
Retrato falado de Xica Manicongo (Imagem: M. Galindo)

O que este artigo responde: Quem foi Xica Manicongo? Qual é a origem de Xica Manicongo? Como a história de Xica Manicongo foi resgatada? Em qual escola de samba a história de Xica Manicongo foi contada? Xica Manicongo foi queimada viva? Onde Xica Manicongo viveu? Qual é a importância de Xica Manicongo para a população  LGBTQIAPN+? Quem desfilou como Xica Manicongo no carnaval? Qual escola de samba transformou Xica Manicongo em enredo?

 “Xica segue viva em cada travesti deste país. Uma história de luta, de garra, de resistência, de perseverança, assim como o carnaval. Poder pisar nessa Avenida levando a memória, a dor e a história de Xica enche o nosso coração de esperança de que é possível construir uma sociedade e um espaço de cultura cada vez mais democrático, diverso, popular e, por que não, travesti. As travestis sempre fizeram o carnaval e nunca tiveram a sua história contada.”

As palavras são da também pioneira Erika Hilton, primeira vereadora trans e negra eleita na capital paulista, a mulher mais votada da cidade e de todo o Brasil em 2020,  uma das 100 afrodescendentes mais influentes do mundo e a primeira mulher negra e trans a liderar uma bancada partidária na Câmara Federal, a do PSol – Partido Socialismo e Liberdade.

E sua declaração é dada durante o Carnaval 2025, no sambódromo do Rio de Janeiro, quando a escola de samba Paraíso do Tuiuti celebra a vida de uma travesti, contando e cantando sua história no enredo Quem tem medo de Xica Manicongo?”

Só não venha me julgar Ô Ô / Pela boca que eu beijo / Pela cor da minha blusa /E a fé que eu professar /
Não venha me julgar /Eu conheço o meu desejo /Este dedo que acusa/
Não vai me fazer parar /
Faz tempo que eu digo não / Ao velho discurso cristão /Sou Manicongo
Há duas cabeças em um coração / São tantas e uma só /Eu sou a transição/
Carrego dois mundos no ombro / Vim Da África Mãe Eh Oh…
Eu pego o touro na unha / A bicha, invertida e vulgar /
A voz que calou o “Cis tema” / A bruxa do conservador / O prazer e a dor
Fui pombogirar na Jurema / Chama a Navalha, a da Praia e a Padilha /
As perseguidas na parada popular / E a Mavambo reza na mesma cartilha / Pra quem tem medo o meu povo vai gritar

Eu travesti / Estou no cruzo da esquina /Pra enfrentar a chacina
Que assim se faça / Meu Tuiuti /
Que o Brasil da terra plana, /Tenha consciência humana /
Chica vive na fumaça / Eh! Pajubá!…

Samba de autoria de Claudio Russo e Gustavo Clarão

Xica é uma sacerdotisa da quimbanda, já se reconhecia mulher quando em África, mas foi vendida como homem e batizada como Francisco. Mas o nome, a identidade e a fé que lhe são impostas não refletem a sua essência. E ela resiste. Preserva suas práticas religiosas e encontra refúgio junto à tribo Tupinambá, da Bahia, onde compartilha saberes e vivências em um contexto de aprendizado coletivo e resistência cultural. Os povos originários lhe apresentam o Catimbó.

Herege!?

Em Salvador, Xica tem seu trabalho explorado por um sapateiro, na Cidade Baixa, de acordo com  registro de documentos oficiais arquivados em Lisboa, Portugal. Mas a sociedade se incomoda com o seu jeito de ser. Ela tem grande resistência em usar roupas ligadas ao imaginário masculino e a se comportar “como um homem”. Por isso, a denúncia ao Tribunal do Santo Ofício, instituição eclesiástica católica responsável por punir judicialmente “crimes contra a Igreja”.

Xilogravura representando Xica Manicongo (Imagem: Reprodução)
Xilogravura representando Xica Manicongo (Imagem: Reprodução)

A pena? Queimada viva em praça pública e ter seus descendentes desonrados até a terceira geração. Para não morrer, Xica abdica de suas roupas femininas e adota o estilo masculino de se trajar. 

Nome social

Séculos se passam até que Manicongo “ganha vida”, em especial entre a população LGBTQIAPN+,na década de 1990, após a divulgação de sua história  pelo antropólogo e ativista Luiz Mott.

Seu sobrenome é um título utilizado pelos governantes de seu país para referir-se aos seus senhores e às divindades. Pode-se traduzir ‘Manicongo’ como  “Rainha ou Realeza do Congo“. 

Marjorie Marchi, ativista e travesti, então presidente da Associação de Travestis e Transexuais do Rio de Janeiro – ASTRA-Rio, na década de 2000, documenta sua história como homem homossexual, a classifica como travesti  e lhe dá o nome social de Xica Manicongo. 

Visibilidade

A ideia é transformá-la em um ícone da luta. E, em 2010, Marjorie, que é também uma das principais lideranças do movimento, cria o Prêmio Xica Manicongo, de reconhecimento a iniciativas relacionadas com direitos humanos e promoção da cidadania de travestis e pessoas trans.

2018 marca o lançamento, pela estilista baiana Isaac Silva, de uma coleção de moda em homenagem a Xica e, três anos depois, um quilombo urbano no Rio de Janeiro e batizado com o seu nome.

Jup do Bairro, Maria Clara de Araújo e Valentiza Luz desfilam com peças da coleção de Isaac Silva em homenagem à Xica Manicongo (Imagem: Reprodução)
Jup do Bairro, Maria Clara de Araújo e Valentiza Luz desfilam com peças da coleção de Isaac Silva em homenagem à Xica Manicongo (Imagem: Reprodução)

A Xica Manicongo atribui-se o título de primeira travesti brasileira não indígena. Seu nome tem sido citado em estudos sobre gênero, raça e escravização no Brasil. Sua memória segue sendo resgatada por movimentos populares, artistas e historiadores.

O documento

O antropólogo e ativista Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, encontra a história de Xica nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, a história de Manicongo. E tem como ponto de partida a publicação da Primeira Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil, de 1925.

O documento, com data de 21 de agosto de 1591, registra que durante a primeira visitação do Santo Ofício à Bahia, Matias Moreira, cristão-velho de Lisboa, morador no Colégio da Companhia de Jesus, denuncia Francisco de Congo, cativo de Antonio Pires, sapateiro, morador abaixo da Misericórdia de Salvador, “que não só tinha fama de homossessexual entre os negros da cidade”,  como se vestia à maneira dos homossexuais passivos da sua terra natal. A referência é a um pano envolto no corpo de modo sensual.

Para o antropólogo, Francisco é “o homossexual mais corajoso de que se tem notícia nesse começo da nossa história”. Isso porque, naquela época, os imbandaas – assim eram chamados os homossexuais passivos no Congo e em Angola e quimbandas eram tidos como seres sobrenaturais, de poder ilimitado, que atuavam sob inspiração do diabo.

Na rua

Em 2022, as vereadoras da capital paulista pelo Psol, Elaine do Quilombo Periférico, Luana Alves e Erika Hilton (depois eleita deputada federal), propõem dar o nome de Xica Manicongo a uma rua na periferia da zona Sul da cidade. O projeto é aprovado na Câmara Municipal, mas é vetado pelo prefeito. 

Para Ricardo Nunes, não é suficiente Xica Manicongo ser reconhecida como a primeira travesti com identidade confirmada na história do Brasil nem representar a “luta das travestis brasileiras pelo direito à memória e reconhecimento” -, como aparece na justificativa do projeto.

Mas Xica vai para a rua…

“Contar a sua história é o maior manifesto que a gente pode fazer”, afirma Jack Vasconcelos, autor do enredo da escola de samba Paraíso do Tuiuti, que lhe valeu o prêmio de “Melhor Inovação” no Carnaval 2025.

E Xica não vai só…

Na avenida Marques de Sapucaí, no sambódromo do Rio de Janeiro, a deputada federal Érica Hilton “encarna” a personagem que ostenta a faixa de presidenta da República, acompanhada de 27 travestis, vivas e felizes, que no seu dia a dia atuam como parlamentares, ativistas, artistas, acadêmicas, servidoras das forças armadas e de diversas outras áreas profissionais.

Erika Hilton desfila na Sapucaí com a faixa presencial, em homenagem a Xica Manicongo. (Imagem: Globo | Reprodução)
Erika Hilton desfila na Sapucaí com a faixa presencial, em homenagem a Xica Manicongo. (Imagem: Globo | Reprodução)

Na visão do carnavalesco da Tuiuti, “mostrar essas mulheres travestis vivas e felizes para o mundo todo, mulheres que carregam em si a resistência e a luta por identidade e liberdade”, é parte do manifesto.

“Nós existimos, nós sempre renascemos da fumaça, como canta o enredo, nós simbolizamos a resistência por dignidade, por cidadania, por democracia, porque não há democracia enquanto o Brasil seguir sendo o primeiro que ainda mata por puro ódio e preconceito essa população”.
– Erika Hilton

Em outra oportunidade, na mesma noite do desfile, a parlamentar tenta traduzir sua emoção:

“Eu tô muito feliz …Eu sinto que a Tuiuti me deu um presente…. Me deu a oportunidade de entrar na Avenida da Sapucaí, uma das mais bonitas, importantes do carnaval brasileiro, levando no meu corpo, na minha voz, a história da minha ancestral, uma mulher igual a mim…”

Sem fronteiras

2025 dá projeção nacional e internacional para Xica, a partir do desfile no sambódromo do Rio de Janeiro e da transmissão pela Rede Globo. Mesmo assim, insistem em assassinar o seu direito à memória.

É o caso – para citar um exemplo – da enciclopédia gratuita online Wikipédia, onde Xica Manicongo aparece como “Francisco Manicongo, também conhecido como Francisco de Congo, escravo africano que viveu em Salvador/Ba, na segunda metade do século XVI”.

Capa do Livro "Quem tem medo de Xica Manicongo" (Imagem: Divulgação)
Capa do Livro “Quem tem medo de Xica Manicongo” (Imagem: Divulgação)

Quem tem medo de Xica Manicongo? – como pergunta o título do enredo da Paraíso do Tuiuti, uma travesti do século XVI – é uma provocação não por acaso. A quem interessa apagar a história negra? A quem interessa tornar invisível quem tem fôlego para a luta, figura transgressora em sua trajetória, que se torna símbolo de resistência das pessoas trans e amplia o debate sobre diversidade e inclusão na sociedade brasileira?

De acordo com o antropólogo Luiz Mott, este é um dos primeiros casos documentados de africanos homossexuais. A outra documentação é de Vitória do Benim e data de 1556.

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Fontes: Biblioteca Florestan Fernandes, A Casa 1, Bienal de São Paulo, Terra, Diário do Rio, Brasil de Fato, G1, O Globo, Wikipédia

Escrito em 10 de março de 2025

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