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Amor Afrocentrado, para além do amor romântico, uma imersão em nós mesmos

“O amor é o que o amor faz.”
– bell hooks

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      • Quando me proponho a falar de amor, de amor afrocentrado, estou pensando para além do amor romântico – homem mulher, mulher-mulher, homem-homem etc.

      • Quando me proponho a falar de amor, de amor afrocentrado, quero pensar em respostas para a pergunta de Malcolm X: “Quem nos ensinou a nos odiar?”

      • Quando me proponho a falar de amor, de amor afrocentrado, mais que pensar em respostas, quero descobrir junto como fazemos para acabar com o desamor, com o desrespeito, com a intolerância entre nós.

      • Quando me proponho a falar de amor, de amor afrocentrado, quero memoriar sobre como fomos criados. bell hooks chama a nossa atenção para a confusão que fazemos entre amor e abuso.

      • Quando me proponho a falar de amor, de amor afrocentrado, quero refletir sobre a violência na nossa vida “em nome do amor”, por conta de nosso medo de amar.

      • Quando me proponho a falar de amor, de amor afrocentrado, quero que avaliemos a quantas anda o nosso amor. Se temos praticado a ética do amor no nosso dia a dia, nas nossas relações, com os pais e mães de nossos filhos, com os pais e mães de nossos amados…

      • Quando me proponho a falar de amor, de amor afrocentrado, quero que olhemos para o como tratamos as pessoas das nossas relações, como tratamos nossos pais, filhos, amigos, vizinhos, conhecidos, gente como a gente… 

      • Quando me proponho a falar de amor, de amor afrocentrado, a ideia não é apontar o dedo, não é reclamar do outro, mas mergulhar na nossa vivência do amor. E ver o que podemos mudar em nós.

      • Quando me proponho a falar de amor, de amor afrocentrado, aposto na ideia do comprometimento e da responsabilização do nosso existir por nós mesmos. Isso porque quando reclamamos do outro, só o outro tem de mudar. E eu acredito que quando eu mudo, tudo muda a minha volta. 

      • Quando me proponho a falar de amor, de amor afrocentrado, mergulho na minha espiritualidade para avaliar quanto de amor tem nela. E observem que falo em espiritualidade e não religiosidade que tem a ver com correntes religiosas e não com a nossa conexão ancestral, com o divino em nós. A religiosidade não tem nos conectado com o amor.

      • E eu escolho também, como ponto de partida, para refletirmos sobre o amor afrocentrado, o pensar a partir do Mulherismo Africana, dos escritos de bell hooks, a partir de seu olhar nos livros Tudo Sobre o Amor e A gente é da hora, sobre masculinidades negras, bem como pensar os sinônimos confluentes, que são caminhos para o autoamor, como autoestima, autocuidado, autovalorização, autodeterminação, auto reconhecimento…

    Akoma é um símbolo Adinkra do povo Akan de Gana, que representa o coração e simboliza amor, paciência, boa vontade, fidelidade e tolerância. É frequentemente associado ao provérbio "Nya Akoma", que significa "Tenha um coração e tenha paciência".

    Amor afrocentrado tem a ver com contra colonizar o pensar e o sentir.

    Viver o amor afrocentrado pede mudança de como estamos em sociedade. Nós falamos de um lugar de falta de amor, mas não pensamos que “se falta” é porque não existe em nós.

    “Honrar a nós mesmas, amar nossos corpos, é uma fase avançada na construção da autoestima saudável”. 
    – bell hooks

    Amor afrocentrado tem a ver com isso. Mas a professora ativista também chama atenção para a nossa dificuldade em compreender o que é o amor. Para ela, amor, mais que um sentimento, é uma atitude, um verbo.

    Ela escreve: 

    O amor é o que o amor faz. É uma combinação de cuidado, compromisso, conhecimento, responsabilidade, respeito e confiança. No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover contra a dominação, contra a opressão. No momento em que escolhermos amar, começamos a nos mover em direção à liberdade, a agir de forma a libertar a nós mesmos e aos outros.”

    Conectar-se afetivamente tem a ver com amor afrocentrado. E não é nos acusando, reclamando, que vamos chegar lá. O amor só pode florescer em ambientes saudáveis. Relações afetivas têm a ver com acesso ao cuidado.

    Para falar de amor afrocentrado – seja pensando em casais cis ou homoafetivos – temos de falar obrigatoriamente de masculinidades negras…

    bell hooks se refere ao amor como um ato político e fala em ética do amor. Eu entendo o nosso existir como um ato político e precisamos, sim, de muito amor. Não só amor de casal, mas amor de relacionamento, de cosmo percepção, do “eu sou porque nós somos” – como ensina a filosofia ubuntu.

    Nos educar é um ato político. Educar uma criança é um ato político! A educação dos seres humanos sempre foi capitaneada pelo feminino. Nós somos o útero do mundo. A vida depende de nós! E os homens são fruto da educação que demos e damos a eles.

    A gente pede Justiça e não avalia se educamos nossos filhos, nossas crianças, com justiça.

    É verdade que uma mulher sozinha não gera um outro ser humano – é preciso esperma e óvulo. Mas só a mulher garante o povoamento da Terra, garante a eternidade do planeta! É poder demais em nossas mãos. E é tempo de refletirmos sobre o que temos feito a esse respeito, como temos lutado.

    É desse lugar que eu proponho olharmos para as masculinidades: um lugar de auto responsabilidade, de co-resposabilidade, de poder. É nossa a presença na primeiríssima infância, na infância, na pré-adolescência, na adolescência, na juventude, na vida adulta, na velhice… 

    Nós somos presença na vida da humanidade o tempo todo. Tudo que acontece com a humanidade tem a nossa co-participação.

    Precisamos tomar posse deste lugar de importância no planeta.

    África em vermelho, centralizada no globo do planeta Terra

    Precisamos memoriar o nosso existir para entender como deixamos de nos reconhecer, de querer estar junto, como começamos a nos desvalorizar, a negar nossa espiritualidade, nosso olhar para a vida… como deixamos de nos amar… Tudo isso tem a ver com amor afrocentrado, com ética, com política.

    Somos um povo diverso. Só não podemos perder de vista a nossa origem, a nossa jornada, o que nos une.

    Homens têm de falar de angústias, dores, desejos… Vamos ajudá-los nessa jornada. Isso é amor afrocentrado. Porque, não raro, o abusador é a mãe, que teme que o filho seja mole demais – reaja “como mulherzinha”!

    É preciso proteger a vida emocional dos meninos. Os jovens negros aprendem que masculinidade é sinônimo de controle sobre os outros corpos.

    Já passou a hora de sentir e de falar de amor com sinceridade, valorização do afeto e perspectiva de futuro

    Nosso maior compromisso de vida é com a gente mesmo. E a gente só transforma o próprio existir – contagiando a todos que estão à nossa volta – nos comprometendo, nos responsabilizando…

    É fácil apontar o dedo – principalmente se quem erra não tem nada a ver com a gente, não é sangue do nosso sangue. Mas em se tratando de povo afrodescendente, somos, sim, todos e todas do mesmo sangue, temos a mesma origem ancestral.

    Amor é força transformadora, não tem a ver com a imagem do coração inteiro ou partido, não tem a ver com posse, não é fantasia… devemos amar com mais respeito, responsabilidade, compreensão e demonstração constante de afeto e coragem.

    Não existe receita do certo, mas temos que ter consciência do que não podemos continuar fazendo. 

    Homens e mulheres negros e negras precisam ir além da mudança estética. Precisamos de mudança ética.

    bell hooks propõe como primeiro passo para mudar essa história entendermos o que é o amor. Depois, acreditar e ir além do amor romântico. E, por fim – ou começo -, abrir mão do medo.

    Abrir mão do medo é libertador! A gente se agarra a dor por medo de amar. Libertar-se é abrir mão do medo de amar. Amar liberta a dor!

    Há um ditado de Ogum, um orixá de caminho, que diz:

    ‘Quem tem medo, vive pela metade.’

    A doutora em filosofia, Katiúscia Ribeiro, explica:

    “O medo é uma condição natural da existência humana. Diante do medo, devemos encará-lo. O medo não pode ser um agente que nos paralisa, que nos impossibilita de seguir o caminho. Trabalhe com seus medos. Não se boicote de novas experiências, de novos amores, de romper com amores. Não tenha medo de tomar novas decisões, de cortar antigas decisões. Não tenha medo de trilhar novos caminhos. Nós somos transformação, o vir a ser em constante movimento. Entenda o medo como sinal interpretativo do que está por vir.” 

    O homem negro, na nossa sociedade, é cercado de inveja, desejo e ódio. Conscientes disso, precisamos abrir mão do discurso de ódio, ensinar nossos meninos a dar e receber amor, falar de amor e com amor, sem transformá-los em “homenzinhos” na ausência de um parceiro.

    Homem que é homem pode chorar sim, falhar sim, ter medo sim, sentir-se fraco sim, sentir dor. Homem que é homem é humano e quer muito ser feliz, só que nem imagina o que é felicidade. Nosso poder está na nossa capacidade de sentir. 

    Não é verdade que quem não recebeu amor não sabe dar amor.

    Ritualização, desrespeito, humilhação são táticas para quebrar o espírito do garoto, é pedagogia do abuso. Existem maternidade e paternidade tóxicas.

    Medo de que o filho seja criminoso, reprimir as emoções e atacar a autoestima roubam a infância e a adolescência. Crianças e jovens não tem que atender aos sonhos dos adultos.

    Agir com violência é outra maneira de controlar a dor. Meninos abusados emocionalmente acabam ficando cheios de raiva e tornam-se adultos viciados em raiva. Impotência é ver-se como uma pessoa sem valor.

    A raiva é justiceira e arrogante. Não houve nem respeita os outros nem se importa consigo próprio. Muitos dos problemas dos homens negros são consequência do sentimento de que não têm valor.

    A consciência da dor é o começo da cura

    O patriarcado é um sistema de exploração, dominação e opressão. 

    bell hooks (Imagem: Reprodução)

    bell hooks (Imagem: Reprodução)

    No livro A gente é da hora, bell hooks traz um colo, um consolo, mas não abre espaço para o vitimismo e, sim, para a reflexão sobre as nossas responsabilidades – de homens e mulheres pretos e pretas – , o que inclui um olhar crítico sobre quem somos, como nossos corpos são tratados como um alvo para a morte, curar-se e criar conexões.

    “Apesar de todos os avanços nos direitos civis, no movimento feminista e na liberação sexual, quando os holofotes se voltam para os homens negros a mensagem é que eles não conseguiram sair do lugar (…)”

    Isso porque estamos imersos em uma cultura que não ama o homem negro, apenas o deseja:

    “...nem os homens negros se amam. Como eles poderiam amar a si mesmos e uns aos outros (…) cercados de tanta inveja, desejo, ódio? Homens negros na cultura do patriarcado supremacista branco capitalista imperialista são temidos, não amados (…) Se os homens negros fossem amados, poderiam esperar mais do que uma vida trancafiada, enjaulada, confinada…” – no Brasil, 68,2% da população carcerária é de homens negros.

    Mas bell hooks não se refere só às estatísticas do sistema penitenciário. Ela escreve sobre o impedimento de o homem negro existir, sendo forçado, em algum momento da vida (ou sempre), a conter o Eu que desejaria expressar, reprimindo-se, refreando-se, por medo de ser atacado, massacrado, destruído, “Homens negros, muitas vezes, vivem em uma prisão mental”! 

    Vistos como animais, brutos, estupradores por natureza e assassinos, os homens negros não têm sua voz ouvida de verdade. Vítimas de estigmas articulados durante a escravização, incorporam o estereótipo negativo.

    Não podemos perder de vista a cor – a raça, como inventou a branquitude – de quem raptou, escravizou, violou de todas as formas os corpos negros

    Não podemos perder de vista que o homem negro, desde o primeiro momento da escravização – no início, só jovens negros eram capturados como se fossem animais para serem escravizados -, rebelou-se, buscando reconquistar a própria liberdade. Não podemos perder de vista os mais de 100 anos de resistência do Quilombo dos Palmares, iniciada no século XVI.

      • A Europa nos fez acreditar que ser homem é igual a ser homem branco. E nossos homens, negros, acreditaram. E nós, sem refletir a respeito, acreditamos! 

      • Afinal, qual é o padrão de homem branco que a gente conhece desde sempre: o que rapta, sequestra, tortura, estupra, viola, rouba, mata homens e mulheres negros. 

      • Por que queremos ser iguais ao povo branco?

      • Por que o estuprador, branco na origem, se transformou em estuprador negro?

      • Por que o ladrão branco na origem, hoje é o negro?

      • Estaremos cegos?!

    Que este texto traga acolhimento e desassossego.

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    2 comentários em “Amor Afrocentrado, para além do amor romântico, uma imersão em nós mesmos”

    1. Jéssica Gonçalves

      Parecem palavras escritas na hora certa.
      Esse debate urgente precisa acontecer. Estou feliz de ter encontrado esse veículo de comunicação com tanta beleza e excelência, estarei acompanhando mais de perto. Tania, suas palavras são como águas cristalinas que ao se unirem com águas turvas, vão aos poucos deixando tudo mais cristalino. Parabéns a todos que compõem o Primeiros negros.

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