O que pensar sobre o significado do nome deste país que chamava Alta Volta quando colonizado pela França e que, 24 anos após a independência, assumiu-se como um lugar de pessoas honestas, incorruptíveis, “terra de pessoas íntegras”? O que pensar sobre a luta, nesse país africano, pelo direito de viver a partir de suas próprias riquezas, sem saques, escravização e/ou acordos que impedem o simples ir e vir?

O que este artigo responde: O que significa o nome Burkina Faso? Quem foi Thomas Sankara e por que é chamado de Che Guevara africano? Quem é Ibrahim Traoré e qual é seu projeto político para o país? O que está acontecendo atualmente em Burkina Faso? Como funciona o neocolonialismo francês no Sahel e o que é o franco CFA? Por que Burkina Faso é estratégico por causa do ouro e de outros recursos naturais? O que é a Aliança dos Estados do Sahel e qual seu impacto geopolítico na África Ocidental?
Burkina Faso é um país sem litoral na África Ocidental, de 274.223 km² (o equivalente ao estado do Tocantins). Sua população – estima-se – é formada por 24 milhões de pessoas. Sua geografia é caracterizada por uma savana gramada que, gradualmente, dá lugar a florestas esparsas.

Burkina Faso existe desde 4 de agosto de 1984. Antes, no mapa, o território era conhecido como República do Alto Volta. E, em tempos imemoriais, compunha os Reinos Mossis.
Uma história da Era Comum
A região noroeste de Burkina Faso é povoada por caçadores-coletores entre 14.000 e 5.000 da Era Comum. Quer dizer, antes de contarmos o tempo a partir do surgimento de Jesus.
Caçador-coletor é o ser humano que vive em uma sociedade na qual toda ou a maior parte do sustento é obtido pela caça de animais selvagens e coleta de plantas silvestres. Nós herdamos estes modos de subsistência do mundo animal, particularmente dos macacos.
Assentamentos agrícolas apareceram naquele território entre 3.600 e 2.600 da Era Comum. O que é atualmente o país Burkina Faso era composto principalmente pelos Reinos Mossis, que se tornaram um protetorado francês em 1896. quando da fatídica “partilha da África”, condição que mantém até 1960 quando “recupera” sua independência.
Thomas Sankara, chefe de Estado à época, é quem cria o novo nome a partir de diferentes idiomas falados no país: Burkina significa “direito”, “íntegro”, em more, e Faso, “terra natal”, “pátria”, “casa do pai”, em diúla. A junção das palavras gera a expressão “terra de pessoas íntegras”, “pátria dos humanos íntegros”.

A capital Uagadugu, no centro do país, está a cerca de 800 km do oceano Atlântico. É lá que vive o presidente Ibrahim Traoré, militar com patente de capitão, de 37 anos de idade, uma das primeiras vozes a contestar a atuação militar francesa na África Ocidental e acusar o imperialismo ocidental de terrorismo na região.
Traoré aposta em uma transformação radical, de “apagamento” do existir europeu no território onde governa e nos países vizinhos – Burkina Faso faz fronteira com Mali, Níger, Benin, Togo, Gana e Costa do Marfim – e tem inspirado jovens em toda a África a lutarem contra o neocolonialismo ocidental, ao reacender a confiança no pan-africanismo, que fala em África para os africanos, nascidos no continente ou na diáspora.
Leia os artigos sobre os pilares do Pan-Africanismo e o perfil do líder Ibrahim Traoré.
Che Guevara Africano
Antes de Ibrahim Traoré existiu Thomas Isidore Noel Sankara, militar, revolucionário marxista, pan-africanista, líder político de Burkina Faso e o seu 5º presidente, entre 1983 a 1987. Seus objetivos são todos centrados na luta contra pressões neocolonialistas e pela conquista de direitos humanos.
Em apenas quatro anos, Sankara transforma Burkina Faso em símbolo de soberania e justiça social. Erradica privilégios, nacionaliza recursos, eleva a taxa de alfabetização de 13% para 73%, promove a emancipação das mulheres com a proibição da mutilação genital feminina, o fortalecimento dos sistemas de educação e saúde, com programas de vacinação, e faz um grande esforço para atingir autossuficiencia alimentar.

Anticolonialista, no primeiro aniversário da revolução que o leva ao poder, Sankara muda a bandeira nacional, o hino e o nome do país para República Democrática e Popular do Burkina Faso – que significa terra de pessoas honestas, do povo honesto, íntegro -, simbolizando o povo que volta a ser orgulhoso e independente. E mais: ordena que todos os funcionários, incluindo ele próprio, abram suas contas bancárias ao escrutínio público.
Sua liderança é marcada, ainda, pela redução do desperdício no governo e, também, pela distribuição de terras aos camponeses, por programas de expansão da rede ferroviária nacional, pela construção de moradias, hospitais e escolas e pelo combate à desertificação da região, a partir do plantio de dez milhões de árvores.
Para ele, a República do Burkina Faso deveria criar seus próprios moldes, produzir para ela mesma e consumir suas produções. Assim, a indústria de algodão burquina cresce e as roupas dos burquinenses passam a ser nacionais.
Sankara nasce em 21 de dezembro de 1949, na cidade de Yako, em uma antiga colônia francesa que ainda se chamava República do Alto Volta, e é assassinado em 15 de outubro de 1987, aos 38 anos de idade, ao lado de seus doze apoiadores, em um golpe comandado por seu ex-aliado e vice-presidente Blaise Compaoré, com apoio de forças estrangeiras, principalmente da França.
De Sankara a Traoré
O assassinato de Sankara põe fim à revolução de 1983, mas não apaga o seu legado – Burkina Faso era um dos países mais pobres do mundo na sua época e saiu dessa condição.
Se passam quase 40 anos até a queda de Compaoré e sua condenação em 2022, mas a memória de Sankara inspira uma nova geração de jovens africanos e o atual presidente Ibrahim Traoré é um que, no poder, retoma os ideais de independência, justiça e dignidade que marcaram a luta do revolucionário marxista.
Sankara e Traoré são os dois líderes que propõem um novo existir a Burkina Faso. Não é por acaso que o povo burkinabè vê em Traoré o retorno do líder revolucionário Sankara.
Os habitantes se autodenominam burkinabè (plural invariável). O sufixo “bè” adicionado a “Burkina” forma o adjetivo pátrio “burkinabè”, que na língua fula significa tanto “homem íntegro” quanto “mulher íntegra.”
Traoré, inclusive, admite que a Revolução Progressista Popular (RPP), inaugurada por ele, em 2025, é inspirada nas mudanças radicais promovidas por Sankara, conhecido não só como o “Che Guevara africano”, mas também como um dos maiores nomes da política pan-africana do século XX, ao lado de Nelson Mandela, Amílcar Cabral e Patrice Lumumba.

Sankara sabia quea principal riqueza de Burkina Faso é o povo burkinabè, a ponto de convencer e treinar militarmente esse mesmo povo para defender o país e erradicar o colonialismo francês.
A diferença entre os dois está na formação de Traoré, mestre em Geologia. Sua vivência acadêmica, na única universidade de Burkina Faso, incluiu viagens pelo interior do país.Ele vê a olho nu as realidades sociais do povo em contraste com as riquezas de sua terra.
Terra do ouro e muito mais
A base da economia de Burkina Faso é, principalmente, o ouro. Mas suas principais riquezas incluem depósitos de minérios (manganês, zinco, fosfatos) e produção agrícola (manga, algodão).
Seu PIB – Produto Interno Bruto é de 23,25 bilhões de dólares (Banco Mundial, 2024) – o PIB mede o rendimento nacional e a produção de um determinado país; representa as despesas totais de todos os bens e serviços finais produzidos durante um período de tempo estipulado.
Consciente das riquezas do país, a junta militar liderada por Traoré, à frente do governo, nacionaliza duas minas de ouro que pertenciam a uma empresa listada em Londres, eestá construindo uma refinaria própria.
Com o ouro nacionalizado, o governo já distribuiu 179 milhões de dólares em máquinas agrícolas para sustentar a revolução da agricultura no país, cuja 80% da população está no meio rural.

Outra medida governamental é a criação de uma empresa estatal de mineração, que exige de todas as empresas estrangeiras uma participação de 15% em suas operações, não importando se mantêm uma aliança estratégica com Burkina Faso ou não – como a Rússia e outros países do Sul Global, como a China e a Turquia. A ideia é que todos ganhem e que não exista submissão.
Dados do Banco Mundial, divulgados em julho de 2025, informam crescimento econômico em Burkina Faso. O país passou de 3% em 2023 para 4,9% em 2024 e mais de 700 mil pessoas em todo o país deixaram a extrema pobreza somente nos últimos 12 meses.
Mão na massa
O líder burkinabé coloca em prática um audacioso plano de industrialização e autossuficiência alimentar. E, para isso, conta com suporte popular massivo, principalmente dos jovens até 30 anos, que representam quase 70% da população.
No dia a dia, é comum ver mutirões populares para a pavimentação de ruas e estradas, bem como vigílias cidadãs noturnas com o objetivo de proteger Traoré e o país de possíveis atentados. E o povo ainda colabora com um fundo coletivo para sustentar o processo revolucionário.
“Somos nós mesmos que trabalhamos nossas terras, organizamos e mecanizamos a agricultura e produzimos em quantidade suficiente para que o povo tenha comida em quantidade e qualidade. Somos nós mesmos que fazemos nossas estradas. Fazemos pavimentações, consertamos nossas estradas, fazemos tudo.”
– analista político Bayala Lianhoué Imhotep/ Brasil de Fato)
Na opinião do artista-ativista do reggae e membro do Centro pela Liberdade e União Africana Thomas Sankara, Sawadogo Pasmamde, o Oceán, Ibrahim Traoré “é uma possibilidade de implementar o sankarismo puro e prático”:
“O povo compreendeu que não precisamos mais do Banco Mundial nem do FMI (Fundo Monetário Internacional). Vamos financiar nossa guerra, vamos desenvolver nosso país”.
Consciência africana
O crescente sentimento anti-França de quem vive nos países do Sahel aumenta após a invasão da Líbia pela Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN, com a derrubada do líder líbio Muamar Gaddafi, em 2011, que traz como consequência a marcha de grupos de contrabandistas e ramificações da Al-Qaeda em direção aos países africanos, levando a violência se espalhar pelo Mali, Burkina e Níger.
Com um discurso a favor da democracia, pela boa governança e pelos direitos humanos, se exporta o terrorismo líbio para a África. Só que a leitura dos fatos em Burkina Faso indica que a real intenção dos países da OTAN, desde o início, era saquear o petróleo líbio e usar o terrorismo como estratégia de recolonização militar dos países do Sahel.
O fato é que à medida que a violência se espalha para países vizinhos como Burkina Faso e Níger, a França expande sua presença militar na região, enviando milhares de soldados para a região, em 2014, com a justificativa de combater o terrorismo, sem que, de fato, os ataques diminuíssem.
“O exército francês não é um exército de cooperação interna nacional, é um exército mercenário contra a nossa segurança e dignidade. É por isso que 70% da nossa população, que são jovens, consideram que, se não assumirmos o controle de nossos países, esses 70% correm o risco de morrer na pobreza, na miséria, e de morrer tentando atravessar o Mediterrâneo para chegar à Europa, para chegar aos Estados Unidos.”
– analista político Bayala Lianhoué Imhotep
“Curioso” é que a presença terrorista é registrada em áreas do Sahel onde há riquezas no subsolo. Daí a pergunta: Por que a violência terrorista se concentra onde há petróleo, onde há diamantes, onde há urânio?
Geograficamente, o Sahel é uma região semiárida que marca a transição do deserto para as savanas mais úmidas; uma faixa de 500 a 700 km de largura, em média, e 5.400 km de extensão, com o Deserto do Saara, ao norte, e o Sudão, ao sul; o Atlântico, a oeste, e ao Mar Vermelho, a leste, atravessando os países Gâmbia, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Argélia, Níger, Camarões, Sudão do Sul, Eritreia, Etiópia, Djibuti e Somália.
Levantes militares progressistas
O primeiro levante acontece no Mali, em agosto de 2020, com a ascensão de Assimi Goita, em meio a protestos massivos contra a presença francesa no país. Dois anos depois, é a vez de Burkina Faso, com o capitão Ibrahim Traoré. E, fechando a lista, vem o Niger, em 2023, com a ascensão do general Abdourahamane “Omar” Tchiani ao poder.
Os três líderes representam uma nova geração de oficiais militares progressistas que canalizam a frustração pública generalizada com o neocolonialismo francês. Além da luta militar conjunta, por meio da criação da Aliança dos Estados do Sahel (AES) – um pacto de defesa mútua criado entre o Mali, o Níger e o Burkina Faso, em setembro de 2023, os três países compartilham ideias semelhantes em relação à soberania.

Alinhado, o grupo estabelece medidas como a nacionalização de minas, a criação de bancos públicos e estratégias conjuntas para se desvincular da moeda francesa, uma das heranças impostas para a independência, como o artigo descreve abaixo.
“Pacto colonial”!?
Burkina Faso integra os países do Sahel que, do ponto de vista político-econômico, é uma região de terras ricas em recursos naturais, como urânio, ouro, gás e diamantes, cujas reservas estão entre as maiores do mundo. Tem ainda manganês como riqueza potencial e reservas de níquel, bauxita, zinco, chumbo e prata.
Mesmo com toda essa riqueza, os países sahelianos estão entre os mais pobres do planeta, por conta de décadas de dominação colonial, de exploração francesa que não parou mesmo após a “independência”.

“Independência” entre aspas mesmo porque a França inventa, e empurra goela abaixo dos africanos, uma narrativa onde se coloca como “parceira” e “amiga” de suas ex-colônias.
E para coroar o engodo, o chama de “pacto colonial” e institui o conceito de Françafrique para camuflar uma série de acordos militares e econômicos, que permitem o acesso francês a vários aspectos da governança dos países africanos, incluindo os minerais estratégicos.
Um dos efeitos práticos do tal “pacto colonial” é a restrição quase completa da capacidade das antigas colônias de produzirem e processar bens em suas próprias terras. Aos países africanos, donos das riquezas, é dado apenas o papel de fornecedores de matéria prima.
“Antes de dar independência aos nossos Estados, a França impôs uma condição. Você assina acordos de cooperação para ser independente. O que há nesses acordos? Primeiro, você reconhece o bom que foi a colonização e é obrigado a reembolsar tudo o que a França investiu, mesmo através de trabalho forçado. Depois, se compromete a favorecer as empresas francesas; é obrigado a usar o francês como língua oficiale, ainda, obrigado a depositar todos os ativos, todas as moedasque temos, em uma conta do tesouro francês”.
– Mamane Sani Adamou, um dos fundadores da Organização Revolucionária pela Nova Democracia, em 1992, em entrevista ao Brasil de Fato
Destaque-se um discurso feito na União Africana, em Addis Abeba, na Etiópia, em julho de 1987, por Thomas Sankara, sobre as dívidas de Burkina Faso, vindas do colonialismo:
“As origens da dívida remontam às origens do colonialismo. Aqueles que nos emprestaram dinheiro são os mesmos que nos colonizaram. São os mesmos que geriam as nossas economias. Os colonizadores endividaram África através dos seus irmãos e primos que eram os credores. Não temos nenhuma ligação com essa dívida…”
Para se ter a exata dimensão do mal, da pilhagem europeia sobre o continente africano e especialmente da França, vale um retorno ao século XIX, quando da Conferência de Berlim (1884-1885), também conhecida como “Partilha da África”, neste link.
Leia o artigo A Partilha da África.
Moeda sem valor
Pode-se dizer que, além da exploração das riquezas de África, a França obrigou os africanos a pagarem, literalmente, por sua independência ao criar moeda ligada ao seu Tesouro nacional, o franco CFA, e obrigá-los a fazer todas as suas transações financeiras no Banco da França.
Mas não só: o franco CFA, imposto aos ex-colonizados para que os franceses pudessem comprar os produtos do Sahel a preços baixos, ainda está em vigor e não tem valor na própria França.
A taxa de câmbio oficial da moeda de Burkina Faso é atrelada ao euro.
“Não somos livres para produzir em nosso país. Não somos livres para fabricar coisas em nosso país. Não somos livres para transformar nossas matérias-primas em nosso país, para alimentar nossa população. Não podemos nos industrializar com essa moeda colonial.”
– professor Philippe Toyo Noudjènoumè, secretário-geral do Partido Comunista do Benin e liderança da Organização dos Povos da África do Oeste
E, para manter esse sistema, a França vem apoiando golpes de Estado e posicionando estrategicamente bases militares permanentes em países como Cabo Verde, Senegal e Costa do Marfim.
Desde 1960, foram mais de vinte intervenções militares francesas em toda a África, incluindo a orquestração de assassinatos políticos, como o do líder panafricanista Thomas Sankara, em Burkina Faso, em 15 de outubro de 1987.
“Consideramos os Estados Unidos, a OTAN e a França como inimigos da paz internacional, da paz dos povos e do direito dos povos à diversidade e à diferença.”
– Bayala Lianhoué Imhotep
De golpe em golpe
A exploração de Burkina Faso pela Europa começa em 1886 com o alemão Gottlob Adolf Krause. Dois anos depois, chega o oficial do exército francês Louis-Gustave Binger. Em 1895, a França obtém um protetorado sobre o império Yatenga e começa a invasão de terras, em umaluta de flechas envenenadas contra armas de fogo. E este é só o início.
Em 1966, Burkina Faso se torna uma nação independente. Masmilitares, em diversas ocasiões, intervêm na administração pública, a ponto de depor o governo eleito e dominar a política do país por cerca de 14 anos, quando uma série de greves iniciadas por trabalhadores em geral, professores e funcionários públicos leva a outro golpe de Estado, desta vez liderado pelo coronel Saye Zerbo.
O governo de Zerbo dura dois anos até que oficiais não comissionados do Exército se rebelam e instalam o major Jean-Baptiste Quedraogo, que vê seu governo dividir-se em facções opostas. Os radicais vencem a disputa e em 4 de agosto de 1983, eles estabelecem o Conselho Nacional Revolucionário com o capitão Thomas Sankara como chefe de Estado, que é assassinado a mando de Blaise Compaoré.
Tomada de poder e renúncia
À frente de triunvirato que incluía Jean-Baptiste Boukari Lingani e o capitão Henri Zongodo, Blaise Compaoré chega ao poder. Com o passar do tempo, os dois discordam dele sobre questões de reforma econômica e, em 1989, são acusados de conspirar para derrubá-lo, presos e executados.
Em 1991, uma nova constituição é promulgada e Compaoré é eleito presidente e reeleito em 1998, 2005 e 2010.

O saldo de suas décadas no poder?
Problemas econômicos, guerra civil contra a Costa do Marfim, descontentamento popular, alto custo de vida, greves, manifestações de estudantes universitários denunciando a brutalidade policial, de soldados protestando contra baixos salários e auxílios não pagos….
Alarmado, em especial com os protestos militares – tais manifestações raramente ocorriam -, Compaoré destitui seu governo e nomeia a si mesmo o novo ministro da Defesa, reduz o preço de alguns alimentos básicos, paga os auxílios a que os soldados tinham direito e dá aumentos salariais para funcionários públicos.
Seu objetivo?
Completar 27 anos no poder!
Mas ele não consegue. O povo segue nas ruas da capital do país e de outras cidades em protesto.
Ele declara estado de emergência, dissolve o governo mais uma vez e promete dialogar com a oposição.
Não adianta. O povo exige a sua renúncia!
Novos tempos
Horas depois, o general Honoré Traoré, chefe das Forças Armadas, reafirma a dissolução do governo e da Assembleia Nacional e declara a formação de um governo de transição.
Sob pressão, o governo de transição militar entrega o poder a uma administração civil de transição e as eleições gerais são marcadas.
Vários ex-associados de Compaoré são presos e acusados de corrupção. Além disso, cria-se uma lei que impede qualquer indivíduo de se candidatar às eleições caso tenha apoiado o ex-presidente.
Nas eleições presidenciais e legislativas de 29 de novembro de 2015, quatorze candidatos concorrem e vence Roch Marc Christian Kaboré, com mais de 53% dos votos.
Islã e morte
Kaboré enfrenta uma crescente ameaça de militantes islâmicos. Em 2017, uma força antiterrorista regional é formada com Burkina Faso, Chade, Mali, Mauritânia e Níger para combater as ameaças dos militantes e melhorar a segurança nas fronteiras.
Nos anos seguintes, a escalada da violência leva a uma crise humanitária, com mais de um milhão de burkinabè deslocados internamente, milhares de escolas fechadas e mais de três milhões de burkinabè em situação de insegurança alimentar.
Mesmo assim, em 22 de novembro de 2020, Kaboré é reeleito com quase 58% dos votos. Mas a frequência e a intensidade dos ataques de militantes islâmicos aumentam e visam tanto militares quanto a população em geral.
Frustrados com a forma como Kaboré lida com os desafios de segurança do país, um ano depois, os cidadãos exigem a sua renúncia.
Mais dois golpes
No dia 24 de janeiro de 2024, a junta militar do Movimento Patriótico para a Salvaguarda e Restauração, liderada pelo tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, anuncia a deposição de Kaboré, a suspensão da Constituição, a dissolução da Assembleia Nacional e do governo, e o fechamento das fronteiras do país.
Um segundo golpe no mesmo ano, meses depois, em 30 de setembro, depõe Damiba, que é substituído pelo capitão Ibrahim Traoré, que segue no poder na data de publicação deste artigo.
Leia também os artigos Burkina hoje, a experiência contracolonial e Ibrahim Traoré, um militar progressista.
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Fontes: Aventuras na História, Brasil de Fato, Wikipédia-Ibrahim, Trading Economic, Wikipedia-Burkina, Enciclopédia Britânica, Instagram
Escrito em 1 de março de 2026