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Maat, a origem da vida

Sistema de equilíbrio da realidade, águas primordiais, ética, justiça, sabedoria, o feminino para além do gênero, princípio vital

Egito
Representação de Maat no Egito Antigo (Imagem: Reprodução)
Representação de Maat no Egito Antigo (Imagem: Reprodução)

Qual é a origem da vida?
Qual a origem da existência?  
Os africanos são os primeiros seres vivos a responder estas questões. 
E a resposta é o FEMININO, é MAAT.

Maat é a origem da vida. Nascemos com o coração de Maat, que é dado na gestação, pela gota de sangue da nossa mãe. Lá, estão todas as formas de concepção de mundo.

Maat é a experiência da própria existência. É o oceano cósmico, o princípio criativo, de tudo e de todas as coisas.    

Ela é a base da ciência espiritual africana, a ordem cósmica divina – vida,  natureza, herança espiritual, o todo. Não é uma ideia racional, mas o sentir-equilibrar-percorrer. Por isso, o coração é o elemento fundamental de Maat

Deusa da ética, da retidão, da verdade e da justiça – em oposição ao pensamento colonial – , ela entende que o coração deve ser mais leve que uma pena

Maat
Imagem da deusa Maat (Reprodução)

Na sua representação, carrega uma pena de avestruz no seu ori (cabeça), que mede nossa conexão matéria-espírito – uma referência aos sentimentos que devemos guardar na alma. Maat ou Ma’at  foi encontrada pela primeira vez em Kemet, no antigo Egito. E é uma deusa preta, uma jovem deusa preta, o feminino na sua pulsão pura.

Princípio vital

Maat não tem a ver com identidade de gênero, sexo biológico. Não é homem nem mulher, é um princípio, é a garantia de continuidade, o estabilizador do mundo, o sacro poder que fertiliza tudo.

Útero mítico, oceano cósmico, águas matriciais, gera a si mesmo e as suas continuidades. Tudo é uma coisa só – indivíduo e cosmos. Tudo faz parte, tudo é em si. Tudo é incluso. O ser é o todo. O todo é o ser. Logo, somos Maat e ela é o nosso coração cósmico.

Do ponto de vista original, africano, é impossível dissociar a concepção do ser da realidade espiritual. Tudo que existe está relacionado: somos a própria experiência acontecendo de forma constante. Somos seres interconectados com o todo.

Gestar

O verbo de Maat é gestar. Ela gesta o Cosmos, o mundo, a natureza e doa às mulheres o elemento feminino capaz de gestar os filhos na materialidade. E é permanente o processo de gestar a continuidade, para além de parir crianças.

Maat, Tumba Faraó Siptah
Imagem de Maat na tumba do faraó Siptah (1197-1191 a.C.), no Vale dos Reis, Egito. (Reprodução)

A reflexão africana sobre a concepção do ser parte de uma realidade composta de duas realidades complementares: útero cósmico se refere à energia do feminino (não ao útero biológico), de gerir, de gestão, de permanência, continuidade. Não tem a ver com ser mulher.

A perspectiva africana inclui, ainda, ressignificar o que existe. Nós aprendemos vivendo e não sendo estudados como coisas. Trata-se de presença, sentimento,  conexão, integração, coletividade no lugar da individualidade como propõe a sociedade ocidental.

Pessoa

Ser mulher é uma invenção – leia o artigo Educar africano. A feminilidade perpassa o ser humano. Todos somos espiritualidade e a espiritualidade é a dimensão real que impacta a realidade física e vice-versa. Toda a forma de pensar passa pelo coração.

René Descartes, considerado “pai da filosofia moderna”, lançou a ideia – abraçada pelo Ocidente – de que só podemos ter certeza de que existimos porque somos capazes de pensar. Ou seja, que para ser racional, é preciso ser desconectado do espírito. E resumiu sua tese com a frase: “Penso, logo existo”.

Só que razão com consciência + espírito + coração – como ensinam as filosofias africanas – é o que conta da nossa existência como ser integral. A racionalidade não dimensiona quem somos.

E mais: não precisamos de religiosidade para viver nossa espiritualidade. O tempo todo somos espíritos. O ser em si é o espírito. Pensar é sentir. Nós somos a experiência do sentir.  

Para as filosofias africanas, não se pode separar pensamento de emoção. Ambos estão necessariamente conectados. É daí que obtemos conhecimento. Razão e emoção, juntas, nos dão o entendimento intuitivo das coisas.

Cada um é o microcosmo do Universo. O Universo existe em nós. Estudando e conhecendo a si mesmo, você conhece o Universo.”

(Marimba Ani, antropóloga, mais conhecida por sua obra Yurugu, uma crítica abrangente da cultura e pensamento europeus)

Mãe cósmica

A palavra ‘mãe’ surge da raiz ‘ma’, de Maat, mãe cósmica. Matrigestão é a perspectiva do feminino como um sistema organizativo para pensar a realidade do mundo não a partir do pátrio poder, do poder masculino. A cultura da África é matrifocal, matrigestora, matricentralizadora. E esse “matri” – vale insistir – não advém de mãe, mas de Maat.

Para a deusa, existem duas estradas a serem percorridas pela humanidade: aquela dos que procuram viver Maat, em conexão ancestral, e dos que vivem as paixões mundanas

A noção de terra integrada vem de Maat, como sinônimo de verdade, justiça, retidão, ordem, equilíbrio, harmonia, reciprocidade. Mas é também algo muito mais amplo e multifacetado: é uma ética em conformidade com o cosmos. Maat é a representação suprema da ordem divina na Terra, equilíbrio não simétrico, princípio da complementaridade.

42 leis de Maat
As 42 leis de Maat, regras a serem observadas e valorizadas durante nossa vida na Terra. (Ensinar História)

Isis não é Maat

Que não se confunda Maat com Isis, as duas são deusas africanas, têm representação parecida – com suas asas abertas -, mas papéis bem diferentes nas filosofias africanas.

Isis tem o chifre de uma vaca – animal sagrado para os keméticos, os antigos egípcios – e, no meio dele, um sol, referência ao primeiro deus, o deus Rá. Ela é a deusa da fertilidade, enquanto Maat, com sua pena na cabeça, é a deusa da justiça tem a pena da justiça.

Os keméticos acreditam no Juízo Final e na Vida Eterna e a pena da justiça de Maat aparece no papiro do Juízo Final, que traz a representação do coração de um morto colocado de um lado da balança e da pena de Maat no outro. A lógica é simples: se a pena da Justiça pesar mais que o coração, quer dizer que a pessoa foi boa em vida e irá para o mundo de Osiris, da Vida Eterna. Se o coração pesar mais, significa que a pessoa não foi muito boa e não viverá para sempre.

Fonte: Curso Filosofias Africanas – Ajeum Filosófico, aula Feminino, Humanidade e Meio Ambiente em África, com a filósofa Katiúscia Ribeiro e a socióloga Sonia Abike; Marimba Ani e a Visão Africana do Mundo, Afrike, Bárbara Carine – Instagram  

Escrito em outubro de 2023. Atualizado em 19 de agosto de 2024 

5 comentários em “Maat, a origem da vida”

  1. Pingback: Educar africano

  2. Essa carta da justiça não representa Maat! Maat via tudo!!! A representação de Maat é a luz do meio dia que tudo abrange, tudo vê, e vista por todos. É uma heresia representar Maat cega!!!!! Esse conceito de justiça cega é colocada pelos gregos!!! E sim deturpada!!! Que além de cega, valia o quanto se colocava na balança, e não o peso de seu coração! Essa carta da justiça não é Maat!!! É uma heresia!!!

    1. Muito obrigado pelo comentário! Já tiramos a imagem da carta do artigo e substituímos por um desenho inspirado nos originais encontrados no Egito Antigo. Acho que você vai gostar, é a nova primeira imagem do artigo.

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