- Categoria: Saúde
- Tags: PN Entrevista
Saúde Mental, pensares de uma pioneira
Maria Lúcia da Silva é psicóloga e psicanalista pioneira na discussão de saúde mental da população negra – co fundadora e integrante do AMMA Psique e Negritude: Pesquisa, Formação e Referência em Relações Raciais e da Articulação Nacional de Psicólogas Negras e Pesquisadoras.
O que este artigo responde:
- Como o racismo estrutural afeta a saúde mental de pessoas negras no Brasil?
- Quais são os principais transtornos mentais causados pelo racismo em crianças e jovens?
- Por que o índice de suicídio entre jovens negros é 45% maior que entre brancos?
- Como o sistema de saúde deve ser adaptado para atender a população negra adequadamente?
- Qual o papel da escola na prevenção de traumas raciais e sofrimento psíquico infantil?
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Em entrevista ao Portal Cut, ela fala como o racismo tem impactado a saúde mental da população negra, gerando sofrimentos – abalos psicológicos, estresse crônico, vulnerabilidade emocional, ansiedade, depressão, síndrome do pânico.
Racismo que, no dia a dia, se “materializa” nos ambientes os mais diversos – escola, loja, rua, transporte público, no condomínio, no trabalho, no parque de diversões, no shopping, no mercado, no estádio de futebol, no serviço público, no hospita, nas salas de espera…
De acordo com dados do Ministério da Saúde, o índice de suicídio entre adolescentes e jovens negros no Brasil é 45% maior do que entre brancos e só aumenta!
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Pessoas negras de 10 a 29 anos são as que mais sofrem, principalmente as do sexo masculino, cuja a chance de ter a vida tirada é 50% maior do que de pessoas brancas da mesma faixa etária.
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Como o racismo estrutural afeta a saúde mental de pessoas negras?
Maria Lúcia: O racismo estrutural atravessa todos os aspectos da vida social — da moradia à educação, da saúde à justiça – e impõe uma carga constante de estresse psíquico às pessoas negras. Não se trata apenas de episódios isolados de discriminação, mas de um modo contínuo de existir em uma sociedade que nega humanidade, voz e pertencimento.
De onde vem a necessidade de discriminar uma pessoa negra?
Maria Lúcia: O sujeito negro é muitas vezes interpelado não como sujeito de desejo, mas como objeto de projeções coloniais e violentas, o que gera marcas psíquicas profundas, vividas como humilhação, silenciamento, hipervigilância e medo. A saúde mental, nesse contexto, não pode ser pensada fora das relações de poder racializadas.
Diagnosticando…
Quais são os principais transtornos mentais associados ao racismo?
Maria Lúcia: A literatura e a clínica apontam a prevalência de transtornos como depressão, ansiedade, síndrome do pânico, estresse pós-traumático e sofrimento psíquico difuso, muitas vezes não nomeado.
O transtorno individual pode ser a expressão de uma dor histórica e coletiva?
Maria Lúcia: O racismo age como um trauma crônico, considero que cada criança negra que nasce já vem inscrita com significados que o racismo produziu. Podemos dizer que as pressões raciais estão inscritas, umbilicalmente.
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Qual é o impacto do racismo na autoestima?
Maria Lúcia: O racismo internalizado opera quando a pessoa negra incorpora as imagens, discursos e valores da branquitude como parâmetro de valor. Isso pode manifestar-se em autodepreciação, desejo de embranquecimento, vergonha da própria história, da própria aparência ou da ancestralidade. A autoestima, nesse caso, não é apenas individual, mas um terreno simbólico onde se joga a luta por reconhecimento. Como nos ensina o psiquiatra FrantzFanon, o negro, ao se ver pelos olhos do colonizador, muitas vezes adoece por não se reconhecer como sujeito pleno.
Como reverter essa percepção distorcida de si?
Maria Lúcia: A clínica com pessoas negras, ao escutar esses atravessamentos, tem reaberto caminhos de reconstrução concreta, simbólica e de reparação, usando como parâmetro as heranças históricas que as ações políticas têm possibilitado resgatar.
Qual é o efeito do racismo em crianças e jovens?
Maria Lúcia: Crianças e jovens negros que escutam comentários racistas, que são invisibilizados ou hiperexpostos por sua cor, podem viver experiências que produzem sentimentos de inadequação e insegurança. Podem até adoecer, não por fragilidade, mas como estratégia de sobrevivência em um ambiente hostil e de intolerância.
Há diferença, no efeito, entre racismo camuflado e racismo explícito?
Maria Lúcia: A repetição cotidiana de micro agressões e exclusões é tão ou mais devastadora que os ataques explícitos.
Caminhos de cura…
Como garantir saúde mental adequada à população negra?
Maria Lúcia: É urgente que a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra reconheça o racismo como determinante social do sofrimento psíquico.
O que isso implica na prática?
Maria Lucia: Formação antirracista dos profissionais de saúde. Inserção de psicólogas e psicanalistas negras nos espaços públicos de atendimento. Programas específicos de cuidado para juventudes negras, especialmente em territórios vulnerabilizados. Articulação entre saúde, cultura e ancestralidade, entendendo que espiritualidade, oralidade e coletividade são também caminhos de cura.
Qual é o papel das escolas na prevenção dos sofrimentos mentais e psíquicos relacionados ao racismo?
Maria Lúcia: A escola tem o dever de ser espaço de construção simbólica e não de aniquilação subjetiva. É urgente a Implementação da Lei 10.639/03 de forma viva, com histórias negras, epistemologias africanas e saberes quilombolas; a formação de educadores para lidar com questões raciais com seriedade, escuta e ação, e a criação de protocolos de acolhimento para situações de racismo — com cuidado psicológico e responsabilização institucional.
A escola tem sido cúmplice na proliferação do racismo?
Maria Lucia: O silêncio da escola diante do racismo é cúmplice da violência e da produção de traumas. É preciso transformar a escola em espaço de memória e existência.
São necessárias mudanças também no sistema de saúde?
Maria Lúcia: O sistema de saúde tem de tornar-se capaz de escutar o sofrimento racial sem patologizá-lo ou individualizá-lo. É preciso romper com a suposta neutralidade racial que, ao ignorar o sujeito negro, perpetua o silenciamento. Para isso, são necessários prontuários que reconheçam o impacto do racismo como sintoma; protocolos de escuta que levem em conta contextos históricos; espaços de supervisão para todos os profissionais e cuidado para com os profissionais negros, que também sofrem com o racismo institucional.
Qual é a importância da psicoeducação sobre racismo para profissionais da área da saúde?
Maria Lúcia: Sem essa formação, o profissional corre o risco de reproduzir a violência racial dentro da escuta clínica. A psicoeducação é essencial para nomear o racismo como produtor de sintomas, para o reconhecimento do lugar de privilégio branco na clínica, para se evitar a retraumatização de pacientes negros ao negar ou minimizar suas experiências, para construir dispositivos clínicos que sustentem escutas complexas, onde o trauma racial, o inconsciente histórico e a herança escravocrata possam aparecer.
Como movimentos sociais e coletivos negros contribuem para a saúde mental da comunidade?
Maria Lúcia: Eles são fontes de vida, reparação e reconstrução material e simbólica de nossa história. Ao nomear o racismo, saímos da solidão, produzimos conhecimento, pertencimento, políticas de enfrentamento e afirmamos nossa dignidade. Os coletivos são também espaços de elaboração conjunta dos traumas históricos, onde a dor encontra linguagem, escuta… As experiências de sofrimentos produzidos pelo racismo, quando compartilhados, possibilitam investigação, produzem memória.
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Fonte: Portal Cut
Escrito em 25/07/2025




Excelente entrevista, é mais do que urgente que o racismo seja reconhecido com produtor de sintomas. Me identifiquei com o trecho sobre o papel da escola no enfrentamento do racismo.