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Umbanda, com David Dias

David Dias Delgado é autor do livro “Sincretismo na Umbanda – Pactos e Impactos na Identidade dos Povos de Terreiro”, lançado pela Editora Encruzilhada, de sua propriedade – uma escrita com olhar racializado, muitas vezes negligenciado pelos estudiosos do assunto.

O que este artigo responde:

  • O que é a Umbanda segundo David Dias?
  • Qual é a diferença entre Umbanda e Candomblé?
  • Como o sincretismo afeta a identidade dos povos de terreiro?
  • Qual é o papel de Exu na Umbanda e por que ele é tão controverso?
  • O que significa saravá e axé nas religiões de matriz africana?
  • Como o racismo religioso impacta os terreiros de Umbanda?

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Propostas de atividades didáticas com histórias de personalidades negras e brasileiras de destaque.

“Eu devolvi a ancestralidade negra para a Umbanda, para os seus ancestrais, para o povo de terreiro.”
– David Dias Delgado

Sacerdote de Umbanda no Terreiro Aruanda, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, sua terra natal, formado em Comunicação Social e mestre em Ciência da Religião, ele é fundador do Aruanda Studios, espaço dedicado à produção audiovisual de conteúdos produzidos predominantemente para pessoas de terreiro, do Aruanda EAD, plataforma de ensino sobre cultura e saberes umbandistas, e apresentador dos podcasts “Atina pra Isso!” e “Aruanda Podcast.

Pesquisador do assunto, ele acredita que “não há cultura sem sincretismo”. O sincretismo, na sua visão, aliás, “é um dos caminhos” para se iniciar a compreensão das culturas de matrizes africanas, como a Umbanda. Mas, em seu existir, sobram inquietações, dúvidas, inspirações, “respostas temporárias” por conta de nossa evolução permanente e dos “pactos e impactos” que atravessam toda vivência espiritual.

No livro, David Miranda busca as raízes de tudo… Não é por acaso que, na ilustração da capa, tem cruz, pimenta, charuto, flor… 

O PN Entrevista com David Miranda é um compilado de várias de suas falas em programas de televisão e na internet.

Primeiros Negros: Qual é a origem da sua espiritualidade?

David Dias: Minha origem é África. Abdias do Nascimento pensava muito isso. Nós somos africanos em diáspora. Minha origem é esse lugar de reconhecer os meus ancestrais como companheiros. Eu sou filho de Pai João de Angola, é o meu preto velho. Sou filho de Zé Pilintra, da Dama da Noite… Tenho uma legião de espíritos, meus parentes, que me acompanham.

Zé Pilintra é a personificação do malandro que tem de aprender a sobreviver num estado de quase de exceção, se adaptar a uma realidade de tortura e opressão. Com Zé Pilintra, se aprende a gingar para desviar da bala perdida, a lidar com as palavras para tratar com as pessoas que não gostam de você.

Quanto à Dama da Noite, é uma pomba gira, que assume o lugar de mãe e companheira e resgata, em nós, a possibilidade de ver o mundo da forma como ela vê, muito além do feminino.

Zé Pilintra e Dama da Noite (Imagem: Divulgação)
Zé Pilintra e Dama da Noite (Imagem: Divulgação)

PN: O que você sabe de sua origem africana?

David Dias: Tenho mais de 40 anos. Descobri o nome do meu avô, João, o meu preto velho João. Sou filho de um relacionamento interracial. O nome da última geração de avô que eu tive é Bento. Meu passado foi – literalmente – jogado no Atlântico.

PN: Como reelaborar nossa ancestralidade?

David Dias: Eu não tenho direito ao passaporte dos meus ancestrais. A pessoa negra não tem como buscar a dupla nacionalidade. As religiões de matrizes africanas ajudam a gente a reelaborar a ancestralidade. A memória ancestral é um valor inegociável.

PN: Qual é o significado do racismo religioso, da intolerância das religiões de matriz africana?

David Dias: A retirada da nossa religiosidade negra, por meio de manifestações racistas, é a repetição do nosso passado no colonialismo, quando nos tiraram o nome, a possibilidade de memória, para além desse mundo de dor.

PN: Como orientar uma pessoa que tem medo de ir ao terreiro por conta da intolerância, do racismo religioso, da discriminação?

David Dias: O medo é um alerta e pode nos colocar no lugar de vítima ou nos colocar em um lugar potente, de mudança. Por isso, o medo não pode ser um bloqueador de caminho. É preciso coragem para ir com medo mesmo. O coletivo, o terreiro, é o que nos une.

PN: No dia a dia, como você lida com a discriminação?

David Dias: Eu tenho optado por lembrar sempre quem eu sou. A minha vontade, muitas vezes, é arregaçar as mangas e falar vem aqui que eu vou dobrar você no pau. Mas eu sei que eu sou um homem preto. Então, vai dar muito errado se eu combater a violência do racismo com violência. Isso pode me colocar dentro da cadeia…

PN: Como ensinar respeito à sociedade? 

David Dias: O caminho é o conhecimento, a educação. A cultura negra precisa estar na base escolar. Há uma lei para isso, de número 10.639, que diz que é basilar ensinar a cultura de África para as crianças.

Vamos falar da Umbanda…

PN: A Umbanda é mais matriz africana ou dissidência do chamado Espiritismo de “mesa branca”?

David Dias: Umbanda não tem nenhuma relação com Espiritismo. Muitas pessoas vão falar que já foram em centro espírita e viram preto velho falando… Quando a gente fala de Espiritismo, é sobre a obra codificada de Allan Kardec a partir de 1857 – Livro dos Espíritos, Livro dos Médiuns…  Kardec não codifica ou categoriza a mediunidade que se tem no terreiro de Umbanda. Ele categoriza a psicofonia que é o ato de o espírito falar pela boca do indivíduo. A manifestação que se tem no terreiro é diferente – o espírito “entra” no corpo do indivíduo, o que é inadmissível na concepção espírita, que flerta com a pseudociência e pensa na impossibilidade de duas matérias no mesmo lugar. Para o espírita, o espírito se aproxima do que ele chama de “aparelho” e irradia suas vibrações – o caso mais popular é o de Chico Xavier, médium exímio, que realmente incorporava e escrevia coisas que seriam impossíveis ele saber.

PN: Como acontece na Umbanda?

David Dias: A Umbanda é resultado de um sincretismo que está cruzado também com o Candomblé. Na incorporação na Umbanda, eu gosto de usar a expressão “o espírito entra dentro”. Num terreiro, quando o tambor tá tocando, a forma como o espírito entra em contato com o seu corpo é visceral, transformadora. No impacto, se sente outra energia entrando no seu corpo. É fascinante.

PN: “Saravá”, o que quer dizer?

David Dias: Saravá é uma palavra que diz “eu me reconheço dentro da

sua cultura”. Então, quando eu digo “saravá Umbanda”, estou dizendo “Viva Umbanda. Salve a Umbanda”.

David Dias (Imagem: Divulgação)
David Dias (Imagem: Divulgação)

PN: E o axé?

David Dias: Axé é uma palavra usada com conceitos diferentes. Em Cuba, a palavra é utilizada para falar sobre a relação que se tem com a cultura dos orixás. Na África, “Axé” é um poder Vital. Quando eu digo que uma pessoa “tem axé”, estou me referindo a um poder de realização. E quando eu desejo Axé, estou desejando potência na vida.

PN: Exu é o mesmo na Umbanda e no Candomblé?

David Dias: Exu é o grande mensageiro. Exu é aquele que Comunica a palavra de Orunmilá e a palavra de todos os orixás aos seres humanos. Por isso que se diz que Exu é a boca do mundo.

PN: Por que se confunde Exu com o demônio, com o mal?

David Dias: Isso é conceituado no momento da colonização. Exu é aquele que não corresponde a absolutamente nada que se tem de conhecimento dentro do Cristianismo. Exu não se enquadra em nenhuma classificação… Aí, o padre vê ele pelado, de falo ereto, bebendo, fumando, gargalhando, dançando, rindo e pensa; ‘Não pode ser de Deus’… Mas o demônio não tem habilidade para ser Exu… Exu é a Encruzilhada.

Leia o artigo Exu, a figura mais controversa do panteão africano

PN: Qual é a simbologia da encruzilhada?

David Dias: A encruzilhada é um lugar de ofertas. A encruzilhada é um templo vivo. A encruzilhada tem cinco possibilidades – do alto, embaixo, à esquerda, à direita, o centro. Na encruzilhada, você pode escolher até esperar. A encruzilhada é um momento de maturidade, de tomada de atitude.

PN: Como entender a Umbanda?

David Dias: A umbanda é predominantemente um espaço afrobrasileiro banto que cultua Exu, Pomba Gira, Caboclo, Preto Velho, Boiadeiro, Baiano, que são ‘pessoas-espíritos’ que baixam em ‘pessoas-pais-de-santo’, ‘pessoas-filhos-de-santo’, em gente que não é da Umbanda. Umbanda é uma cultura de relacionamento organizado com esses ancestrais.

PN: Qual é a diferença entre Umbanda e Candomblé?

David Dias: Umbanda é um culto de devoção, de celebração, de exaltação a povos ancestrais socialmente excluídos, um culto afrobrasileiro. O candomblé é o culto aos orixás.

PN: Umbanda e Candomblé se retroalimentam no Brasil?

David Dias: Na diáspora, há um encontro entre Candomblé e Umbanda e, de alguma forma, tudo se mistura. A Umbanda cultua os orixás que são trazidos pelo Candomblé. A Umbanda aprende sobre orixás com o Candomblé, como o Candomblé aprende sobre os seres ancestrais com a Umbanda.

PN: Como acontece o encontro entre esses dois cultos?

David Dias: A África não é um país. Vem da África também a cultura que dá início a umbanda no Brasil… A gente pode falar do porto de Santos, do Cais do Valongo, que é quando a gente começa a receber os primeiros negros e negras escravizados no país. Com eles, chegam as divindades cultuadas na cultura banto… A cultura do Candomblé, os orixás, chega nos últimos anos de escravização.

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O assunto é sincretismo religioso…

PN: Como entender o sincretismo religioso?

David Dias: O sincretismo nada mais é do que um fenômeno de encontro de duas ou mais culturas ou religiões resultando numa terceira, quarta, quinta… Quando você tem duas, três, quatro religiões, coloca tudo dentro de um balaio e mistura. Me vem a imagem de um rio e seus afluentes, que vão chegando, criando um fluxo… Isso é bonito, mas não na prática.

PN: Você é contra o sincretismo?

David Dias: Quando a gente pensa o encontro da água do mar com a água do rio, na nossa ideia, surge uma terceira água. Mas o gosto não é doce nem salgado, é água salobra, um gosto esquisito, principalmente quando a gente tem maior quantidade de água do mar do que do rio. Outra situação: se eu tenho um riacho e, em algum momento, ele é invadido pelo mar, fica com gosto de água salgada e eu não vejo mais o rio. Sempre que há esse fenômeno, envolvendo culturas dominantes, culturas de prevalência, um poder acaba marcando, ditando a regra, ganhando a guerra… No Brasil, o sincretismo é nefasto.

"Sincretismo na Umbanda", livro de David Dias publicado pela editora Encruzilhadas (Imagem: Divulgação)
"Sincretismo na Umbanda", livro de David Dias publicado pela editora Encruzilhadas (Imagem: Divulgação)

PN: Nefasto sob que ponto de vista?

David Dias: Com o sincretismo, a gente acaba achando que o Brasil é um povo único, resultado de uma democracia racial, que junta o preto o branco e o indígena e eles se dão super bem… Só que não é assim. O sincretismo causa esse esconde-esconde. Ninguém fala nada e fica uma dominação “boazinha”, “apaziguada”, quando, na verdade, a gente tem uma cultura oprimida pelo sincretismo. E tudo é apagado pela avassaladora expressão da cultura dominante, que traz consigo bandeiras, sobreposição de valores e faz com que as pessoas se confundam.

PN: Exemplifica…

David Dias: O negro no Brasil, hoje, não sabe se ele é preto ou se ele é moreno ou se ele e marrom bombom, mulato – ou se mulato tá errado… 

PN: Como você analisa o embranquecimento do povo de terreiro?

David Dias: Falar de embranquecimento de terreiro é falar de retirar a identidade negra e fazer com que ela se torne cada vez mais branca. O embranquecimento da Umbanda é o momento em que o catolicismo – e não só o catolicismo – vai personificar isso. As pessoas católicas e as pessoas espíritas acessam essa informação e, com o poder que têm, retiram o que não acham interessante para elas, o que incomoda, como sacrifício animal… E dizem: ‘Jesus jamais aceitaria. Vamos, inclusive, colocar Jesus acima de todos os orixás. Dizer quem ele é para que a gente jamais se esqueça do Nazareno’. Foi assim que colocaram Jesus no lugar mais alto do altar da Umbanda, um erro que eu vejo em várias tradições.

PN: Jesus é o problema?

David Dias: O Cristo não é o problema. Eu sou umbandista. Por que eu teria problemas com o Cristo? Mas quando eu saio com minha roupa de Pai de Santo na rua, há pessoas que me matam em nome d’Ele. Isso é racismo religioso.

Leia o artigo Intolerância Religiosa, o ódio semeado em nome de Deus

Identidade

PN: Pai de santo e sacerdote é a mesma coisa?

David Dias: Pai de santo é sacerdote, igual a um padre, um rabino. Há uma analogia para não errar: pai e a mãe são aqueles que têm filhos. Então, o pai e a mãe de santo são aqueles que têm filhos e filhas de santo. Mas, tecnicamente, sacerdócio tem a ver com ‘investidura sacerdotal’. Sacerdócio se dá por transferência, é uma transferência hierárquica. Muitas vezes, o pai e a mãe de santo não têm essa investidura e se intitulam única e exclusivamente pai e mãe de santo. Em outras palavras, sacerdote é aquele que passou por um preparo, que foi instrumentalizado. A ligação do pai de santo e da mãe de santo está muito voltada ao terreiro. Quando a gente fala do sacerdote, presume-se que ele observa a sociedade além do terreiro, tem uma noção do espaço social que o terreiro ocupa, sua importância comunitária.

PN – O que são os terreiros?

David Dias: Terreiros são territórios afro-brasileiros, espaços de resistência onde se preservam valores ancestrais como memória, circularidade, oralidade e valorização do coletivo. É no terreiro onde se reconstrói vínculos familiares, tendo como inspiração as relações com os ancestrais, dando a possibilidade de ressignificar o sentido de comunidade e família, a partir de uma ideologia africana. É neste espaço de produção de saberes e reorganização de sentidos que se encontra a construção e o fortalecimento de nossa identidade, dispensando a razão e fazendo da subjetividade o principal propósito para os nossos destinos.

PN: Como foi o seu processo de consciência racial?

David Dias: Minha mãe nunca disse: ‘moleque você é preto, olha pro espelho, tenha orgulho da tua raça’. Minha mãe só dizia assim: ‘jamais saia sem documento na rua’; ‘eu não vou comprar essa touca pra você, ela fica muito afundada na tua cara’. Ela percebia a violência, queria me proteger, mas não sabia nomear.

PN: O que acontece com o seu despertar?

David Dias: O primeiro momento de compreensão da negritude fez com que eu olhasse para trás, para o passado, o que que vi na escola, a vergonha da minha mãe, os cadernos sem capa da moda, os bailinhos de 15 anos e os grandes eventos em que eu não era convidado, o trabalho recebendo menos, o desejo de comprar uma casa como as pessoas no Jardim Europa… Quando eu me torno negro, eu entendo tudo isso e uma nova pessoa nasce. Aí, eu entendo porque minha mãe ficava brava quando tocava a campainha, ela abria a porta e perguntavam se a dona da casa estava… 

PN: E o seu cabelo, como era?

David Dias: Eu usava a cabeça raspada… Quando passo a usar dreadlocks, noto as pessoas me olhando diferente na rua. E aí vou ganhando outras “insígnias”, do tipo ‘É Bob Marley’… ‘Que bonito, posso pôr a mão?’… ‘É o exótico’… ‘Mas como que você vai lavar?…’ ‘É seu cabelo mesmo?’… Na hora, muitas vezes, não tem como reagir, e você fica preso ali, não sabe o que fazer, fica mudo. É igual o racismo religioso.

PN: Como você define a vida?

David Dias: A vida é um encontro de possibilidades, possibilidades de a gente continuar o sonho dos nossos ancestrais. A vida nada mais é do que a continuação dos passos que os nossos pais, avós, bisavós deram. É uma sequência da qual os nossos mais novos continuarão pela gente. A vida é um ciclo de encontros e desencontros…

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*Edição primeirosnegros.com

Fontes principais: Programa “Provoca, de 11/06/2024, na TV Cultura; Terreiro Aruanda

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