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Ibrahim Traoré, um militar progressista

Nasce um novo líder para inspirar os povos africanos a realizarem a verdadeira independência de seus países e impedir, de uma vez por todas, a instalação de um neocolonialismo que, sob as mesmas bases, rouba a riqueza da terra e de seus habitantes. Ele é o chefe de estado mais jovem do mundo e garante que não existe liberdade quando se impõe a submissão. Seu quartel-general, ponto de partida, é Burkina Faso, a terra dos homens de bem.

Ibrahim Traoré (Imagem: Reprodução)
Ibrahim Traoré (Imagem: Reprodução)

O que este artigo responde: Quem é Ibrahim Traoré? Qual prêmio Ibrahim Traoré conquistou? Onde fica Burkina Faso? Por que Ibrahim Traoré foi eleito Personalidade do Ano? Ibrahim Traoré deu golpe de estado? Ibrahim Traoré é ditador? Quem é o chefe de estado mais jovem do mundo? Existem outros líderes africanos como Ibrahim Traoré? Qual é a importância de Ibrahim Traoré para o continente africano? Como é o governo de Ibrahim Traoré?

30 de dezembro de 2025 – O líder africano Ibrahim Traoré, presidente interino de Burkina Faso, é eleito Personalidade do Ano de 2025 da Shifter Magazine. O militar dá um golpe de Estado antes de assumir o poder. Promete convocar eleições em dois anos, mas não o faz. Ao contrário, consegue um mandato de 5 anos como presidente, com direito a candidatar-se à reeleição. O povo aprova o seu governo, mas não existe unanimidade em torno de seu nome ou de seus métodos de exercício de poder.

O capitão Traoré é uma figura controversa, desperta todo tipo de sentimento, inclusive medo. Para muitos, mundo afora, ele representa uma ameaça à democracia. Para o povo africano e da diáspora negra – incluindo Caribe, Canadá e Estados Unidos – é um líder visionário, ousado e inspirador. 

Encontra eco na comunidade negra global a sua visão de uma Burkina Faso livre e de uma África autossuficiente, soberana, integrada e dona de seu destino, sem as amarras do neocolonialismo europeu e dos sistemas mundiais, que mantém o continente dependente de esmolas, apesar de toda a sua riqueza.

Imagem pública

Aos olhos da imprensa, de ativistas e servidores do Estado, também sobram opiniões sobre quem é e o que representa o militar progressista

“… líder pan-africanistadeterminado a libertar sua nação do que ele considera as garras do imperialismo ocidental e do neocolonialismo…”
– Farouk Chothia, da BBC News

“…a nova face do Renascimento Africano. Ele se veste adequadamente, com fardas estilosas e lenços de pescoço, boina e botas combinando, enquanto faz discursos contra o imperialismoe o colonialismo ocidental, prometendo criar condições internas para conter a migração juvenil e combater a insurgência…”
– Azubuike Ishiekwene, jornalista nigeriano

 “… o presidente mais popular, se não o favorito, da África…”
– Enoch Randy Aikins, do Instituto de Estudos de Segurança

“… influenciado pelo marxismo e pelo pan-africanismo…”
– Sophie Douce, do Le Monde

“Uma nova e poderosa figura no cenário geopolítico africano (…). Sua trajetória e decisões estão transformando radicalmente a configuração política e econômica da região.”
Brasil 247

“…uma das primeiras vozes a contestar a atuação militar francesa na África do Oeste, e a colocar o terrorismo no Sahel como uma criação do imperialismo ocidental …”
– Sawadogo Pasmamde, do Centro pela Liberdade e União Africana Thomas Sankara

Geograficamente, o Sahel é uma região semiárida que marca a transição do deserto para as savanas mais úmidas, que atravessa Gâmbia, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Argélia, Níger, Camarões, Sudão do Sul, Eritreia, Etiópia, Djibuti e Somália. 

Do ponto de vista político-econômico, é uma região de terras ricas em recursos naturais, como urânio, ouro, gás e diamantes, cujas reservas estão entre as maiores do mundo

Novo Che Guevara africano

Os jornais Financial Times, The New York Times e a agência de notícias Reuters destacam, ainda, a inspiração de Ibrahim Traoré no líder revolucionário burkinabè do século XX Thomas Sankara, ex-presidente de Burkina Faso (1983-1987), que implementa uma série de reformas para erradicar as mazelas do colonialismo francês. 

Ibrahim Traoré do lado esquerdo, Thomas Sankara ao lado direito (Imagem: Reprodução)
Ibrahim Traoré do lado esquerdo, Thomas Sankara ao lado direito (Imagem: Reprodução)

Os habitantes se autodenominam burkinabè (plural invariável). O sufixo “bè” adicionado a “Burkina” forma o adjetivo pátrio “burkinabè”, que na língua fula significa tanto “homem íntegro” quanto “mulher íntegra.”

O próprio Traoré admite que a “Revolução Progressista Popular”, inaugurada em 2025, é inspirada nas mudanças radicais promovidas pelo “Che Guevara africano”, em uma referência a Thomas Sankara.

Leia o artigo Burkina Faso, “terra das pessoas íntegras” com a história de Thomas Sankara que, no século XX, em apenas quatro anos no poder, transforma o país em símbolo de soberania e justiça social.

Na origem

Ibrahim Traoré nasce em Kéra, no oeste de Burkina Faso, em 14 de março de 1988. No Ensino Médio, é conhecido por ser “reservado” e “muito talentoso”. Aos 18 anos, entra na faculdade para estudar Geologia na Universidade de Ouagadougou, na capital do país. Sai com dois diplomas: bacharel em Ciências e Geologia e mestre em Geologia. 

Não demora, integra o movimento estudantil – faz parte da Associação de Estudantes Muçulmanos e da Associação Nacional Marxista de Estudantes de Burkina Faso. Nesta última, torna-se delegado e fica famoso por defender seus colegas em disputas.

Ibrahim Traoré (Foto: Issifou Djibo/EFE/EPA)
Ibrahim Traoré (Foto: Issifou Djibo/EFE/EPA)

Aos 21 anos, ingressa no Exército, se forma na Academia Militar e é enviado ao Marrocos para treinamento de defesa antiaérea antes de ser transferido para uma unidade da infantaria. 

Promovido a tenente em 2014, Traoré junta-se a uma força de paz da Organização das Nações Unidas, envolvida na Guerra do Mali,e, em 2018, é citado como um dos soldados da força de paz que “mostraram coragem” durante grandes ataques rebeldes. 

Desilusão e golpe

Ao retornar a Burkina Faso, o tenente Traoré atua em operações contra a crescente insurgência jihadista no país – referência ao terrorismo armado que invoca a guerra santa muçulmana, pela expansão do Islã para além das fronteiras do mundo muçulmano. 

Em 2020, assume a patente de capitão e se declara desiludido com a liderança de seu país, diante do avanço do terrorismo e a persistente miséria do povo.

Ele questiona:

  • Por que bilhões em ajuda internacional não impedem o colapso do país?
  • Por que enquanto tropas estrangeiras permanecem em Burkina, os ataques aumentam?
  • Por que as riquezas minerais beneficiam apenas empresas estrangeiras?
  • Por que faltam equipamentos para os soldados burkinabè, enquanto políticos distribuem “malas de dinheiro” para subornos? 

Aos poucos, Traoré se torna porta-voz de todos que pensam como ele, enquanto realiza um sonho que tinha desde criança, como conta Sawadogo Pasmamde, multiartista e ativista do Centro pela Liberdade e União Africana Thomas Sankara: 

“Ele sempre quis ser militar, mas seus pais se opuseram. Por isso, ele estudou Geologia. E, no final, esses estudos geológicos o levaram regularmente ao interior do país e fizeram com que conhecesse as realidades sociais, o que reforçou sua convicção de que era necessário contrabalançar as relações de força em relação aos terroristas”.

Jovem liderança

Conhecido por suas posições nacionalistas, pan-africanistas, antiocidentais e antiimperialistas, bem como por sua liderança carismática e apelo entre os jovens, Traoré toma a frente de um movimento de ruptura com as potências ocidentais que, por décadas, dominaram os destinos da África, mesmo após a independência nos anos 1960.

Ele integra o grupo de oficiais do exército que apoia o golpe de Estado de janeiro de 2022 em Burkina Faso e, meses depois – em setembro do mesmo ano -, lidera outro golpe com a deposição do então presidente de transição Paul-Henri Damiba.

Militares armados aparecem em transmissão na televisão estatal de Burkina Faso durante anúncio sobre a destituição do líder militar Paul-Henri Damiba, em Ouagadougou.
Kiswensida Farouk Aziz Sorgho anuncia na televisão que o capitão do exército Ibrahim Traore destituiu o líder militar de Burkina Faso, Paul-Henri Damiba, e dissolveu o governo e a constituição, em Ouagadougou (Foto: RADIO TELEVISION BURKINA FASO)

Em um contexto de insegurança generalizada e descrédito nas instituições apoiadas pelo Ocidente, o jovem capitão surge como esperança de soberania real e é escolhido como o novo chefe da junta militar do Movimento Patriótico para a Salvaguarda e a Restauração. 

Traoré assume o cargo de “presidente interino”, como “Chefe de Estado, Comandante Supremo das Forças Armadas”, em 6 de outubro de 2022, com a promessa de realizar eleições democráticas em julho de 2024.

Em poucos meses, expulsa as forças armadas francesas do país, encerra acordos militares históricos, revoga concessões de organizações não-governamentais e inicia uma nova política externa.

No poder, com seu comportamento enigmático e formal, pelo qual sempre foi conhecido, mantém um controle rígido sobre sua comunicação. Investe em propaganda pró-governo na mídia tradicional e nas redes sociais burkinabè. 

Seus discursos viralizam, transformando-o em ícone da juventude africana. Frases como “não seremos mais escravos disfarçados de independentes” e “nosso ouro não servirá mais para enriquecer bancos suíços” circulam como slogans de uma nova revolução. Mais de 50 mil voluntários civis ingressam na força de defesa, segundo o Ministério da Administração Territorial. 

“Ele representa não apenas um governo militar, mas o grito coletivo de povos cansados de submissão.”
– Brasil 247

Inspirados por sua liderança também, países como Mali e Níger, seguem caminhos semelhantes – Mali e Níger, junto com Burkina, formam a Aliança dos Estados do Sahel, um bloco regional com pacto de defesa mútua da região, com discurso anticolonialista e projeto de integração militar, econômica e monetária comuns.

Consolidação no poder

O anúncio de que não haverá eleições em 2024 acontece na primavera de 2023. Traoré questiona a restauração planejada da democracia, afirmando que as eleições não podem ser realizadas a menos que os insurgentes sejam repelidos e a situação de segurança melhorada.

Com a declaração, ele quebra a promessa feita durante as negociações, para assegurar a renúncia formal de seu predecessor, Paul-Henri Damiba, e o compromisso com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental.

Ibrahim Traoré aparece usando uniforme militar e boina vermelha durante evento oficial, em imagem divulgada após assumir a liderança de Burkina Faso.
Ibrahim Traoré (Imagem: Reprodução)

Mas, após consultas nacionais para discutir o futuro da transição em Burkina Faso, em maio de 2024, conquista a extensão de seu mandato por cinco anos adicionais, permitindo, ainda, a sua candidatura às próximas eleições presidenciais.

Ao mesmo tempo, Traoré distancia progressivamente Burkina Faso da França e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, alinhando o país, cada vez mais, com Rússia, Turquia e China, além do Mali e do Níger.

Nas relações internacionais, a ideia é fazer parcerias que não imponham subordinação. A estatal russa Gazprom, por exemplo, já participa da exploração de uma recém-descoberta reserva de petróleo, com planos para que Burkina não apenas extraia, mas refine e exporte derivados. A China, por sua vez, aposta em infraestrutura e tecnologia, sem presença militar.

Leia mais no artigo Burkina Faso, a experiência contracolonial.

Insatisfação

Agradar a todos é impossível e parte das forças armadas, descontente com as decisões do governo, em 26 de setembro de 2023, tenta, sem sucesso, tirar Traoré do poder.

Em dezembro de 2024, Traoré dissolve seu governo e emite perdões para 21 ex-oficiais militares acusados de envolvimento na tentativa de golpe de Estado de 2015 no país.

Em abril de 2025, anuncia que impediu uma tentativa de golpe planejada e acusa o apoio do governo da Costa do Marfim à ação.

Prêmio de impacto!

Por que Traoré é Personalidade do Ano da Shifter Magazine?

Há quem não entenda. 

De qualquer modo, vale saber que o prêmio tem a ver com o impacto que as pessoas causam no mundo.

Sendo assim, o prêmio é inquestionável.

Hitler, Ghandi, Elizabeth II, Papa Francisco e Donald Trump já receberam prêmio idêntico da revista americana Time. O líder venezuelano Hugo Chavez, a banda coreana BTS e o então presidente Jair Bolsonaro também ficaram em primeiro lugar na enquete on-line, aberta ao público geral, para a escolha da “Personalidade do ano”, no ano de 1998.

Ibrahim Traoré cumprimenta apoiadores durante visita pública em Burkina Faso, cercado por civis e militares.
Ibrahim Traoré (Imagem: Sahel Intelligence)

O prêmio da americana Shifter Magazine é uma escolha feita por jornalistas. Os profissionais participam de uma primeira rodada, preenchendo formulários individuais com o nome de potenciais candidatos para, depois, em votação secreta, eleger os vencedores na lista de indicados. 

Ser líder africano

São muitos os líderes africanos assassinados ao longo da história… Em especial, os classificados de “ousados” por lutar por liberdade, desafiar o sistema, querer viver na terra que lhe pertence por direito -, assassinados ao longo da história…

No xadrez global, os poderosos temem os que desafiam o sistema e os eliminam. Foi assim com Thomas Sankara, de Burkina Faso; Patrice Lumumba, do Congo; Muammar Gaddafi, da Líbia; Samora Machel e Eduardo Mondlane, de Moçambique; Amilcar Cabral, da Guiné-Bissau; Agostinho Neto, de Angola; Felix Moumié , de Camarões; Thomas Mapikela e Chris Hani, da África do Sul…

Todos remetem aos perigos e desafios enfrentados por aqueles que ousam desafiar a opressão e lutar pela liberdade. Mas embora suas vidas tenham sido interrompidas precocemente, seus legados perduram, e eles sempre retornam para continuar a luta por justiça, igualdade e autodeterminação em todo o continente africano; para destruir velhas estruturas de poder.

Leia também os artigos Burkina Faso, terra de pessoas íntegras e Burkina Faso, revolução 2.0

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Fontes: Brasil de Fato, Wikipédia-Ibrahim, Trading Economic, Wikipedia-Burkina, Enciclopédia Britânica, Instagram, Financial Times, Blog OGlobo, BBC News, Reuters, The New York Times, Shifter Magazine, Le Monde, Brasil 247, IloveÁfrica

Escrito em março de 2026

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