Muitos pensavam: ela sonha, delira… É verdade que já se contavam mais de 50 anos desde a decretação do fim da escravização no país e, há oito anos, as mulheres celebravam, nas urnas, a conquista do direito ao voto! Mas, todos, boquiabertos, assistiram a utopia de Enedina transformar-se em realidade, com direito a diploma universitário e tudo!

O que este artigo responde: Quem é Enedina Alves Marques? Qual é o pioneirismo de Negra Enedina? Qual é o sonho da Negra Enedina? Quem paga os estudos da Negra Enedina? Como Enedina Alves Marques enfrenta o racismo e o machismo de seu tempo sendo mulher, negra e engenheira?
Enedina Alves Marques nasce no início do século XX, em 13 de janeiro de 1913, em Curitiba, Paraná. Filha de Paulo Marques e Virgília Alves Marques, um casal de negros provenientes do êxodo rural – o pai, lavrador, e a mãe, empregada doméstica -, após a abolição da escravatura em 1888. Integra uma grande família, que chega à capital paranaense em busca de melhores condições de vida.
“Ela lutou muito para se formar. Ela era a única mulher dos sete irmãos e foi a única que estudou“, conta a sobrinha Lizete Marques.
Vence todas as barreiras – gênero, classe e raça -, faz de tudo um pouco para tornar real o sonho de chegar à universidade e formar-se engenheira civil, a primeira do Paraná, a primeira do Brasil!
A aluna
Enedina cresce na casa do major Domingos Nascimento Sobrinho. Ajuda a mãe nas tarefas domésticas na casa do militar e intelectual republicano em troca de instrução educacional.
Aos 12 anos, é alfabetizada e, em 1926, ingressa no Instituto de Educação do Paraná – sempre trabalhando como doméstica e babá em casas da elite curitibana para custear seus estudos.
Recebe seu diploma de professora em 1932 e, nos três anos seguintes, leciona em escolas públicas no interior do Paraná, enquanto faz planos para cursar a universidade de engenharia civil.
E assim se passam nove anos.
Ultrapassada a barreira do vestibular em 1940, Enedina tem de enfrentar o preconceito de alunos e professores do curso de Engenharia da Universidade Federal do Paraná – todos homens e brancos. E os enfrenta com inteligência, determinação e carisma. E os supera, conquistando um a um, dentro e fora do campus.
Depoimentos recordam que suas noites eram todas de estudo e cópia dos textos de livros que não podia comprar, até formar-se em 1945, aos 32 anos.
A engenheira
No início da carreira, Enedina trabalha como engenheira fiscal de obras da Secretaria de Viação e Obras Públicas do Estado do Paraná.
Durante sua trajetória, Enedina assume a chefia de hidráulica, da divisão de estatísticas e do serviço de engenharia da Secretaria de Educação e Cultura; contribui no levantamento de rios, na construção de pontes e atua no levantamento topográfico da Usina Capivari-Cachoeira, que é a maior central hidrelétrica subterrânea do sul do Brasil, – atualmente chamada de Usina Governador Pedro Viriato Parigot de Souza, em Antonina.
Contam que, apesar de vaidosa, durante a obra na Usina Parigot, Enedina fica conhecida por usar macacão e portar uma arma na cintura, atirando para o alto sempre que julgava necessário se fazer respeitada.
Enérgica e rigorosa, impunha-se sempre, pois além de ser mulher era negra, trabalhava em um ambiente majoritariamente ocupado por homens.
Depois de construir uma carreira sólida, nossa primeira engenheira – reconhecida como grande – viaja pelo mundo. Nesse mesmo período, em 1958, o major Domingos Nascimento morre, deixando-a como uma de suas beneficiárias no testamento.
Enedina se aposenta em 1962.
Os anos 1940
O pioneirismo de Enedina Alves Marques nos anos 1940 – quando a abolição da escravatura, de 1888, e o direito ao voto feminino, de 1932, ainda eram debatidos -, mais que história, é incentivo, força ancestral, exemplo de resistência, de luta por um país mais justo, igualitário e menos racista.
Quando Enedina forma-se engenheira civil, o papel destinado às mulheres é, principalmente, o de dona de casa. No mercado de trabalho, as opções limitam-se à sala de aula, como professora, e aos empregos em fábricas, com salários abaixo dos salários masculinos.
Enedina recusa o status quo proposto ao feminino: não se casa, não tem filhos, não vai para as fábricas.
Ao final de sua vida, mora no Edifício Lido, no Centro de Curitiba, onde é encontrada morta aos 68 anos, vítima de ataque cardíaco.
Referência
Negra Enedina está imortalizada ao lado de outras 53 pioneiras do Paraná no Memorial à Mulher, em Curitiba, criado em homenagem a todas que lutaram pela melhoria da qualidade de vida de seus descendentes.
A engenheira empresta seu nome, ainda, ao Instituto de Mulheres Negras de Maringá, fundado em 2006 e empenhado em combater a invisibilidade racial que atinge negras e negros em diversos setores, como o ambiente escolar e o mercado de trabalho.
Sua história de mulher guerreira serve de inspiração para um livro infantil escrito pela professora pós-doutora em estudos interdisciplinares sobre mulheres, gênero e feminismos, Lindamir Salete Casagrande.
Casagrande explica que o contexto histórico em que a engenheira viveu torna o pioneirismo dela ainda mais relevante.
“A universidade não era pensada para mulheres e nem para pretos. Pense: foi uma mulher preta, pobre, filha de escravos libertos que sobreviveu em uma turma com homens brancos da elite. Foi uma batalha muito árdua e significativa.”
Leia também a história dos irmãos Rebouças, pioneiros, visionários e empreendedores negros.
Fontes: INBEC, Hypeness, G1, Revista Ciência e Cultura
Escrito em 19 de setembro de 2014, atualizado em 29 de outubro de 2025
Com relação os negras brasileira eles tem Boss atualizações em vários cetor e sdimiravel