- Categoria: Identidade
- Tags: PN Entrevista
Omoloji Àgbára, as dores no masculino
Omoloji Àgbára é psicanalista baiano, nascido na cidade de Valença. Em seu trabalho clínico, articula Psicanálise, estudos raciais e a filosofia africana diaspórica.
O que este artigo responde:
- Por que homens negros resistem em fazer terapia e cuidar da saúde mental?
- Como o racismo e a homofobia afetam a masculinidade negra no Brasil?
- O que é psicanálise afrocentrada e como ela difere da terapia tradicional?
- Por que relacionamentos afrocentrados são considerados atos políticos de resistência?
- Qual a origem da raiva e violência em homens negros segundo a psicanálise?
Baixe o e-book
Pessoa do candomblé, iniciado há nove anos, é filho de Omulu e Nanã o que, em alguma medida – destaca -, explica seu trabalho na saúde mental. Omulu tem relação forte com doença/saúde e Nanã fala do encaminhamento para a morte.
Sua formação em psicanálise eurocentrada é atravessada por autores negros e negras como os psiquiatras Neusa Santos Souza, do Brasil, e Frantz Fanon, da Martinica.
A também psicanalista e escritora Neusa Santos é referência na abordagem dos aspectos sociológicos e psicanalíticos da negritude, que inauguram o debate contemporâneo e analítico sobre o racismo no Brasil.
Quanto a Frantz Fanon, ele é precursor no estudo dos impactos do colonialismo europeu na desumanização dos povos e na análise da psique do homem negro.
Omoloji Àgbára avisa, na sua rede social, que análise com ele é com capoeira:
“O analisando tá falando de boas e ‘do nada’, ele passa uma ‘rasteira’… Mas para cair, já saltando e dando a volta por cima…”
Para esta entrevista, conversamos por cerca de 70 minutos, depois de eu ter mergulhado em sua página no Instagram – com mais de 37 mil seguidores – por horas.
O que vocês vão ler a seguir, mistura nossa conversa e suas postagens, para refletirmos sobre nascer preto e do gênero masculino em um país marcado pelo racismo, pela homofobia, pela intolerância, pela violência, pelo ódio e pelo desejo de poder.
Na primeira pessoa
Primeiros Negros: Como foi para o Omoloji criança, o ser menino?
Omoloji Àgbára: Eu não podia falar. Na minha família, criança não falava, não respondia para adulto. Fui podado. Era muito “não”. Eram muitas violências! Eu cresci sem poder falar. Mas, adulto, a minha fala sai através da escrita.
PN: Eram violências raciais?
Omoloji Àgbára: Eu não reconhecia as violências raciais. Eu tive problemas com a homofobia. E quando você percebe que co-existem as duas violências, muda a intensidade. Negro afeminado é “bicha”. Branco afeminado é “educadinho”.
Violência e raiva
PN: As violências homofóbicas vinham mais dos homens ou mais das mulheres, negros e negras?
Omoloji Àgbára: Na minha família, eu apanhava de muitas formas de mulheres negras, minhas tias. Sofria homofobia na rua de mulheres negras. Em determinadas situações, a intensidade da violência de mulheres negras se equivalia a dos homens negros...
Leia o artigo do psicanalista Onde “mora” a violência do homem negro?
PN: O homem negro é mais violento que a mulher negra?
Omoloji Àgbára: O feminismo negro traz questões muito violentas contra o homem negro. E existe um olhar desrespeitoso para o que acontece com o homem negro. Dizem que as mulheres negras estão na base da pirâmide. Mas a realidade é que existe um acesso maior das mulheres negras do que dos homens negros à saúde, à educação… Não se contabiliza a violência contra os homens negros, que são eles que cometem mais suicídio, que são os menos adotados, que tem maior taxa de evasão escolar, é a maior população em situação de rua…
Transformam o negro no grande algoz da mulher negra e, aí, no lugar de juntos combatermos a branquitude, ficamos brigando entre nós.
PN: Mas a violência é um dado da realidade?
Omoloji Àgbára: A mulher negra e o homem negro reproduzem violências. Nossa agressividade é fruto da estrutura racista em que vivemos. Foi nesse lugar que a supremacia branca nos colocou. A gente reproduz o modelo branco de luta pelo poder, custe o que custar.
PN: As violências cometidas pelas mulheres negras as tornam privilegiadas?
Omoloji Àgbára: Essas violências não as tornam privilegiadas. Nem se forem mulheres negras cis, heterossexuais magras e graduadas.
PN: Em que re-marginalizar homens negros contribui na luta de mulheres negras?
Omoloji Àgbára:Tem servido muito bem para a manutenção dos lugares de poder de homens e mulheres brancos e brancas. O homem negro que se fode o dia todo no sol quente ou em subempregos, ri quando escuta que é privilegiado, chegando em casa e não vendo os frutos de seus privilégios. Depois, se encanta com o papo de uma direita que diz que ele pode crescer e progredir, sem “vitimismo”. “Privilégios” que ampliam realidades de miserabilidade não são privilégios. São formas sofisticadas de propagar violência entre os já marginalizados. Não temos privilégios. Temos violências, colonização, marginalidade, adoecimento psíquico, desestruturação familiar, alcoolismo, altas taxas de suicídio, fragilidade ou preterimento nas relações afetivas. Eu odeio essa palavra “privilégio” sendo usada para apontar vantagens sociais, muito frágeis, de uma população marginalizada.
PN: De onde vem a raiva do homem negro?
Omoloji Àgbára: Comumente os homens negros são tachados como raivosos e agressivos. E só. Identificar de onde vem a nossa raiva, tem sido o meu exercício. Eu gosto de falar bastante da legitimidade de a gente acolher os sentimentos e as emoções que o Ocidente não considera nobres. Eu, por exemplo, sou uma pessoa que odeia, sente raiva, é rancorosa, agressiva. E isso pode ser percebido nos meus textos, que têm uma força, têm uma energia. Mesmo quando escrevo de dengo, de amor, de afetividade, os meus textos vêm com uma força de ação lá da minha infância.
Leia o artigo “Infância Discriminada“.
PN: Por que tanta raiva e ódio?
Omoloji Àgbára: Na minha família, ficou sempre marcado, o quanto eu era uma criança indesejada, o quanto queriam me entregar para a adoção, porque minha mãe também não era tão presente assim. Essa criança ainda mora em mim e encontra as brechas de gritar a violência que sofreu durante toda a sua vida. E eu falo isso porque hoje consigo identificar as angústias dessa criança em mim, que é agressiva, é rancorosa que sente raiva, que conseguiu através da sua escrita manifestar todas as emoções e sentimentos que naquela criança foram silenciados. É a raiva de uma criança a quem foram negadas experiências de amor, de carinho, de cuidado.
PN: Como se “limpar” de todo este peso?
Omoloji Àgbára: É importante que a gente invista nesse processo de autoconhecimento, de autocuidado, tão profundamente, para que possamos acolher esses sentimentos e fazer com que eles fluam na nossa vida da maneira mais positiva possível. E o que podemos fazer, enquanto povo ou comunidade, é ter consciência dos nossos acessos e das violências que reproduzimos e não propagarmos dinâmicas agressivas coloniais, nos marginalizando duplamente.
Psicanálise racializada
PN: A terapia é um caminho para revertermos essa situação, para transformarmos a energia da violência em nós?
Omoloji Àgbára: A Psicologia ainda tem uma perspectiva na individualidade. O maior investimento da terapia é no sujeito e é preciso pensar o coletivo, trabalhar com grupos terapêuticos. E nós temos essa necessidade ancestral.
PN: Na sua opinião, homem faz terapia com homem, mulher com mulher, lgbt com lgbt, preto com preto, branco com branco…?
Omoloji Àgbára: Depende das necessidades. Muitas mulheres preferem homens, o pensamento diferente. Outras têm mais necessidade de reconhecimento. O diferente pode gerar negligência… Tem a questão da profundidade do que se vai trabalhar. O lugar racial, muitas vezes, é inegociável.
PN: Quando pensamos em pessoas negras, de que saúde mental estamos falando?
Omoloji Àgbára: Quando pensamos em saúde mental estamos refletindo sobre o modo como cada sujeito deseja ser percebido, encarado, analisado. Se o ponto de partida das reflexões sobre este campo é hegemonicamente branco e ocidental, pessoas negras e indígenas não poderão se perceber acolhidas. Por isso, é necessário pensarmos em como se desenvolve uma saúde mental nutrida de humanidades indígenas e negras.
PN: O que isso quer dizer na prática?
Omoloji Àgbára: A terapia deve ser um espaço confortável para falarmos da nossa espiritualidade, sobretudo se essa espiritualidade é a coluna cervical da nossa existência. Falar de orixá na terapia pode ser tão revelador quanto falar da própria mãe, inclusive porque, para pessoas do candomblé, esses lugares se confundem. Pessoas negras, na análise, não lidam apenas com as angústias da sua própria subjetividade. Elas lidam também com todos os benefícios e inquietações que o amadurecimento racial lhes traz.
A filosofia de Obaluaê sob a perspectiva da psicanálise ensina que a cura começa onde a palavra foi enterrada.
Quem só trata a febre, esquece que há dores que moram nas memórias do corpo. A doença é, às vezes, a única forma que alma encontra para ser escutada – o sintoma é um tambor sagrado que bate no ritmo daquilo que foi calado.
Agir com generosidade reorganiza a nossa existência, fortalece o nosso psiquismo.
Quem não honra seus mortos, arrisca carregar dores que não são suas.
A nossa história familiar carrega memórias de dores que ultrapassam gerações, mas não precisam estacionar no nosso espírito.
A sabedoria do velho é uma nascente que alimenta o rio.
A nossa ancestralidade pode nos alimentar com uma infinidade de conhecimentos.
Na pressa de sarar, muitos se esquecem de entender como adoeceram.
Obaluaê ensina que a “cura” que chega antes da consciência só adia a dor.
“Não tem como pensarmos em saúde mental sem discutirmos o acesso ao amor. Alguém que não se percebe amado pouco conseguirá sentir a fluidez da saúde emocional organizando a sua existência.”
PN: Sua pesquisa clínica articula a Psicanálise, os estudos raciais e a filosofia africana diaspórica. Como é isso?
Omoloji Àgbára: Na clínica, o cliente é o protagonista. O formato da clínica depende do paciente. Não existe conflito com outras religiões, por exemplo. Minha formação é em Psicanálise Clínica Freudiana e eu adiciono a minha experiência de terreiro quando interessa ao analisando. Minha perspectiva é filosófica, poética e não religiosa.
Resistência
PN: Por que homens negros resistem em cuidar da saúde mental?
Omoloji Àgbára: Por medo de entrarem em um estado de lucidez tão grande sobre si mesmos e a respeito das suas realidades. Ao cuidarem da saúde mental, eles serão mobilizados pelo seu psiquismo a mudarem de rota, a saírem do lugar e, ainda que a cama seja de prego, há quem prefira se deitar nela a ir para uma cama mais confortável…
PN: É difícil ser homem negro?
Omoloji Àgbára: A gente tem falado sobre as dificuldades de homens negros estarem na terapia ou de investirem em autocuidado em saúde mental, mas discutimos pouco sobre o quão doloroso é para o homem negro remar contra a maré e bancar investigar-se profundamente. A “sociedade” não está preparada para lidar com homens negros embebecidos de autoconhecimento e afeto.
PN: Que repertório afetivo distorcido é esse que insistimos em carregar?
Omoloji Àgbára: Uma das experiências mais desafiadoras que tenho vivenciado em relações homoafetivas é perceber o quanto homens negros, muitas vezes, não conseguem acolher o fato de serem bem tratados – com afeto, cordialidade e respeito – e tampouco conseguem disfarçar o desconforto que sentem ao receber carinho.
PN: Qual a importância de render-se à terapia?
Omoloji Àgbára: A nossa carência precisa ser o centro da nossa análise – ou ela seguirá seu rumo sem freio, nos atropelará e se tornará a armadilha mais ardilosa para captar relações ruins e super apegadas às suas imaturidades. Na análise, podemos não vencê-la, mas, ao menos, tomaremos as rédeas.
Questão de preferência?!
PN: Homens negros preferem mulheres brancas? Mulheres negras preferem homens brancos?
Omoloji Àgbára: Toda vez que eu escuto “homens negros preferem mulheres brancas” ou “mulheres negras preferem homens brancos”, sendo repetido por pessoas negras, sobretudo em tom de humor ou deboche, eu fico com tristeza e ojeriza. É um comentário que (re)marginaliza pessoas negras, que coloca pessoas negras como as algozes de um problema que elas, na realidade (mesmo parecendo que não) são vítimas e não tensiona os lugares confortáveis das pessoas brancas, sendo as “preferidas” pelos homens negros e pelas mulheres negras.
PN: Explique melhor…
Omoloji Àgbára: A discussão sobre relacionamento racial sempre foi sobre racismo e preterimento. Nós temos, enquanto pessoas negras, facilidade de identificar o racismo em diversas áreas da nossa vida – na universidade, no trabalho, na cultura… Mas o campo afetivo é o lugar mais espinhoso de as pessoas identificarem. O relacionamento interracial pode fazer com que pessoas negras encubram o racismo de suas companheiras brancas e de seus companheiros brancos. Isso porque a dimensão afetiva é a mais sensível, a mais sutil. Temos a tendência de proteger aqueles e aquelas que estão no nosso campo afetivo. A questão é que, em casos de racismo, não se trata apenas da minha relação. Se eu faço vista grossa ao racismo do meu companheiro, companheira, eu prejudico a minha comunidade.
PN: Na sua opinião, a justificativa dos relacionamentos inter raciais alimentam o racismo?
Omoloji Àgbára: É muito difil uma pessoa negra, que está em um relacionamento interracial, defender essa relação sem apelar para o racismo. Comumente, eu escuto as pessoas que escolheram viver com uma pessoa branca dizer que as pessoas negras não a quiseram, que as relações com pessoas negras foram muito ruins e que, no final, quem deu o relacionamento bom, quem ofertou aquilo que ela queria, que pode somar, foi o homem branco, a mulher branca. Nessa comparação, o branco é o salvador, é o melhor, é o que nutre. E as pessoas negras estão sempre no lugar do que é ruim. Pessoas negras podem viver com quem elas quiserem. Mas é importante que não se negligencie que em qualquer relação interracial a dinâmica racial estará presente. Em outras palavras, o racismo pode se manifestar.
Amor afrocentrado
PN: Como realizar o amor afrocentrado?
Omoloji Àgbára: É impossível existir amor sendo expressado em sua melhor qualidade sem que as pessoas envolvidas tenham um bom relacionamento com a solidão. A capacidade de sustentar a sua solidão fala sobre a força dos seus filtros para se relacionar. E filtrar, escolher e garimpar bons afetos é o início da construção de amores maduros. Se as dores da solidão fazem seu filtro ser muito aberto, certamente, o falso conforto da relação imatura um dia lhe cobrará caro.
PN: Existem muitas pessoas que torcem para que relacionamentos afrocentrados dêem errado?
Omoloji Àgbára: Eu tenho percebido isso há algum tempo. As pessoas pretas que torcem para que relacionamentos dêem errado falam que o amor preto é frágil, romântico, idealizado demais. Mas essa problematização não é trazida quando se trata de relacionamento interracial. Quando é uma pessoa branca ofertando amor a uma pessoa preta, se diz que não importa a cor. Se diz que é amor, afeto, possibilitando acessos a uma pessoa negra! Este é o olhar que reproduz racismo. Quando a pessoa preta diz que o relacionamento entre pessoas pretas é frágil, romantizado, mas reconhece as potencialidades de um relacionamento inter racial, ela está dizendo que a pessoa branca tem mais condições de oferecer o melhor de si, proporcionar o melhor de si a uma pessoa preta do que um amor preto.
PN: Amor afrocentrado é ato político?
Omoloji Àgbára: Todo amor é político, todo amor possui um discurso, todo relacionamento, toda afetividade entre pessoas comunica algo. Um relacionamento entre pessoas negras tem uma dimensão política profunda e o relacionamento inter racial também. Por isso, é importante compreender qual é a dimensão política do nosso amor, do nosso afeto. Não precisa nem querer se aquilombar, mas não retire a potencialidade de relacionamentos entre pessoas pretas, porque existe uma dimensão socio-política-cultural ancestral de combate ao racismo, de potencialidades entre experiências compartilhadas de pessoas negras que só elas poderão compartilhar entre si o que é ser um corpo negro que atravessa, durante a sua história, diversas violências. Um relacionamento entre pessoas negras promove um encontro que vai gerar um tipo de discurso. Precisamos olhar para casais negros e fortalecê-los com nossa energia.
PN: Amar tem a ver com a ética?
Omoloji Àgbára: O amor é simples. Os relacionamentos são complexos. Amar e toda a ética que o amor traz é algo simples. O amor não é dado a violências, a falta de respeito, a ultrapassar os limites do outro, à falta de acolhimento, à falta de dedicação e à falta de compromisso. O amor possui uma ética até óbvia. Quem ama tem uma relação bem aprofundada de respeito com o ser amado. Mas vamos para o relacionamento não só com o repertório do amor, mas com todo o repertório sócio-político-cultural que carregamos. Vamos para o relacionamento com todas as complexidades que nós somos. E sob esse aspecto o amor é fundamental para voltarmos para o lugar de compreendermos o respeito, o afeto, o vínculo, o cuidado, como um abraço que deve ser dado na pessoa à qual desejamos mergulhar profundamente.
PN: Amor e humildade dialogam?
Omoloji Àgbára: O amor requer de nós uma porção significativa de humildade, para nos desprendermos da nossa soberba e nos debruçarmos no exercício de compreensão da vida, do espírito e da relação com o outro. A humildade para acolher o outro em sua plenitude é adubo do amor; só aí ele germina.
• • • • •
Elaborado em 25 de julho de 2025


Quanta lucidez! Que emocionante foi ler isto. Claro, simples e profundo.
Tenho lido/estudado sobre masculinidade negras e muita coisa não me agrada.
Aqui ele foi preciso demais. Vou seguir e salvar esta reportagem.
Agradeço ao site por proporcionar istom
Josivan, gratidão por seu retorno.
Maravilhosa entrevista com Omoloji Àgbará, sensibilidade e clareza atravessados pela ótica pela ótica psicanalítica, sobre aspectos da masculinidade preta.