Filho de um contínuo do Ministério das Relações Exteriores, vai do Rio de Janeiro ao Leste Europeu durante a infância. Se encanta com a diplomacia, faz carreira e chega a embaixador da África do Sul.
O que este artigo responde:
Quem é Benedicto Fonseca Filho? Como Benedicto Fonseca Filho se interessou pela diplomacia brasileira? Quando Benedicto Fonseca Filho inicia sua carreira como diplomata? Quando Benedicto Fonseca Filho torna-se embaixador?
1985. Aos 22 anos de idade, Benedicto Fonseca Filho passa no concurso do Itamaraty – nome popular do Ministério das Relações Exteriores – e garante presença em jornal de Brasília, quando sai a lista dos aprovados.
No título, o artigo anuncia:
“Mulher e negro passam em primeiro lugar no Rio Branco”
O “negro”, segundo lugar, é ele e “Rio Branco” é o nome da mais antiga escola de governo do país e a terceira instituição mais antiga de formação diplomática do Brasil, reconhecida internacionalmente como uma das melhores academias do mundo. – Instituto Rio Branco!
2010. Passados 122 anos do 13 de maio de 1888, do encerramento oficial do sistema escravocrata, governo brasileiro dá posse ao primeiro embaixador negro do país: Benedicto Fonseca Filho e, também, o diplomata mais jovem a chegar ao topo da carreira, nomeado diretor do Departamento de Temas Científicos e Tecnológicos do Ministério das Relações Exteriores.
Mas uma embaixada “para chamar de sua” só é conquistada em 2022, quando assume o posto em Pretória, capital da África do Sul. E, mesmo assim, só depois de o governo sul-africano opor-se à indicação do político e pastor protestante Marcelo Crivella para o cargo. Diante do impasse da vacância na chefia da embaixada brasileira, o Governo Bolsonaro emitiu a Mensagem nº 70/2022, indicando Benedicto Fonseca Filho.
Anos 1960
A história do jovem diplomata e embaixador de carreira pioneiro começa no Rio de Janeiro, no ano de 1963*. Sua cidade natal não é mais a capital do Brasil. Por isso, seu pai, Benedicto Fonseca*, funcionário concursado, agente de portaria (contínuo), é obrigado a mudar-se para Brasília – a terceira e atual capital do país.
Assim, aos 7 anos, Benedicto sai da Cidade Maravilhosa para viver no cerrado, do sudeste para o centro-oeste, sem imaginar que este era só o começo de sua jornada pelo mundo.
Aos 9 anos, acontece outra mudança, ainda mais radical! A família vai para o Leste Europeu, para a cidade de Praga, capital da antiga Tchecoslováquia, em virtude da remoção do pai para a embaixada brasileira naquele país. E, desta vez, o menino usufrui de oportunidades únicas de aprendizado de idiomas estrangeiros junto com os filhos de outros funcionários da diplomacia.
Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, inclusive, ele comenta a chance que pessoas negras raramente têm:
“Eu não me beneficiei de nenhuma política de cotas. Na época, não havia. Mas olhando retrospectivamente, creio que me beneficiei de certas circunstâncias.
Tive oportunidades que raramente os negros têm. Morei no exterior, estudei idiomas com a ajuda do Itamaraty…”
De volta ao Brasil, na década de 1980, ele é aprovado no vestibular para o curso de graduação em Relações Internacionais na Universidade de Brasília. Seu bacharelado acontece em 1985, mesmo ano de sua aprovação no Curso de Admissão à Carreira da Diplomacia do Instituto Rio Branco.
Preconceito, racismo?!…
Pessoalmente, Benedicto Fonseca Filho afirma nunca ter vivenciado o racismo:
“…seria leviano dizer que eu experimentei uma situação que pudesse identificar como preconceito… Nunca houve… A primeira vez que fui à ONU em 2004, um colega do Caribe me chamou no canto para dizer que, pela primeira vez, via um diplomata negro na delegação brasileira. Ele enfatizou: ‘It’s the first time ever, ever. We are proud”‘ (a primeira vez. Estamos orgulhosos).”
Mas ele sabe que o “preconceito nunca se apresenta claramente” e defende ações afirmativas:
“Eu faço um paralelo com os EUA, que tiveram um sistema de cotas importante para criar uma classe média negra que se autossustenta, que agora pode seguir em frente sem a necessidade de políticas diferenciadas. No Brasil, as cotas das universidades vão produzir uma diversidade salutar”.
E propõe uma reflexão para as pessoas contrárias às cotas:
“Os críticos das cotas têm uma contribuição que não é irrelevante. Eles dizem que, cientificamente, não há raças, não há diferenças entre brancos e negros.
É uma desmistificação para quem acha que há diferenças intrínsecas. Mas há uma falha no argumento. Do ponto de vista humano e das relações sociais, existem diferenças. Basta ver os índices sociais, condições de saúde e de moradia para ver que existe um problema. Isso não é tratado de maneira séria e aprofundada. Nosso país tem muitos passivos. A preocupação social e racial tem que andar lado a lado. Ou deixamos as coisas acontecerem, ou tentamos uma intervenção. O assunto não pode ser jogado para debaixo do tapete”.
Vale lembrar a fala de Joaquim Barbosa – terceiro negro a sentar-se em uma cadeira como ministro do Supremo Tribunal Federal, também de origem humilde – em entrevista à Rádio França Internacional em janeiro de 2014:
“A nossa diplomacia é formada em 99% por brancos e é muito discriminatória (…) No Brasil, o racismo não é explícito: é latente, disfarçado, e se mostra nas situações nas quais os negros são excluídos. Quando alguém é surpreendido em um ato racista, ele muda de discurso, faz como se não fosse nada, diz que era uma brincadeira, reafirma que o país é uma mistura de raças, lembra que tem uma tia negra. Porém, em tudo aquilo que conta de verdade, na economia, nas posições de comando, os negros são excluídos”.
África
Ao longo de sua carreira, no exterior, Benedicto Fonseca Filho trabalha nas embaixadas de Washington (EUA), Buenos Aires (Argentina), Acra (Gana), Tel Aviv (Israel) e Praia (Cabo Verde). Também participa de missão junto à Organização das Nações Unidas em Nova York, entre 2004 e 2007, e é Cônsul-Geral no Consulado do Brasil em Boston. Mas é na África do Sul que assume como embaixador, para cuidar – além das relações comerciais – do resgate de elementos de nossa identidade, cultura e sociedade.
2022. Senado Federal aprova a indicação do diplomata Benedicto Fonseca Filho para chefiar a embaixada brasileira na África do Sul, a segunda maior economia do continente africano, após a Nigéria.
…
Benedicto Fonseca é o primeiro afrodescendente, nascido no Brasil, a tornar-se embaixador, como diplomata de carreira. Antes dele, em 1961, jornalista negro, nascido em Sergipe, Raymundo de Souza Dantas foi indicado ao cargo de embaixador pelo então presidente da República Jânio Quadros e assumiu a chefia da Embaixada do Brasil em Gana. Souza Dantas não era diplomata de carreira.
…
*Não encontramos informação sobre o dia e mês de nascimento de Benedicto Fonseca nem o nome de sua mãe.
…
Fontes: Agência Senado, Folha de S. Paulo, Wikipédia, Diplomacia Business, Rádio França Internacional
Escrito em 21 de março de 2011. Atualizado em 24 de fevereiro de 2025