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Solidão da negritude?!

“Povoada… Quem falou que eu ando só? Nessa terra, nesse chão de meu Deus,Sou uma mas não sou só. Povoada… Quem falou que eu ando só? Tenho em mim mais de muitos… Sou uma mas[...]

O que este artigo responde:

A solidão é realmente uma questão de gênero dentro da negritude ou uma herança histórica que afeta todo o povo negro? Como a ancestralidade africana e o conceito de Ubuntu podem nos ajudar a compreender e superar o isolamento imposto pelo racismo estrutural? De que maneiras o movimento feminista branco e o capitalismo têm contribuído para dividir e enfraquecer o povo negro? O que significa “ser povoada" pela ancestralidade e como essa consciência pode transformar nossa relação com o sentimento de solidão?

Sumário

“Povoada…
Quem falou que eu ando só?
Nessa terra, nesse chão de meu Deus
,
Sou uma mas não sou só
.

Povoada…
Quem falou que eu ando só?
Tenho em mim mais de muitos…
Sou uma mas não sou só.”

(Música “Povoada”, de Sued Nunes)

Desde que tomei consciência da ancestralidade em mim, desde que me reconheci povoada, tenho pensado em como esta condição natural das pessoas de origem africana não combina com a palavra solidão nem deve servir de “instrumento de guerra”, motivo de confronto, entre o povo negro. Solidão da negritude, se existe, não é uma questão de gênero. É outro olhar…

Minha intuição me diz que sentimos mais banzo que solidão, que é a tristeza, a saudade do que não vivemos, saudade do que nos foi roubado, saudade de tempos imemoriais, exatamente porque somos – todas pessoas de origem africana – povoadas pelos que vieram antes, tenhamos consciência disso ou não.

Conhecer, resgatar a história inteira do nosso existir, é o caminho para a construção do futuro que queremos viver… 

Precisamos buscar o Berço da Humanidade, ir à fonte da civilização, para desatar os nós que têm impedido nossa caminhada no ritmo que sabemos possível… 

A comunidade

Nós somos da vida em comum. Os que vieram antes viviam em tribos, sem portas. Sobonfu Somé, no livro, Espírito da Intimidade, sem falar em solidão, indica o caminho do adoecimento, que é uma memória esquecida em nós.

Ela escreve na página 35:

“A comunidade é o espírito, a luz-guia da tribo, é onde as pessoas se reúnem para realizar um objetivo, para cuidar umas das outras (…) Quando você não tem uma comunidade, não é ouvido, não tem um lugar onde possa ir e sentir que realmente pertence a ele, não tem pessoas para afirmar quem você é e ajudá-lo a expressar os seus dons. Essa carência enfraquece a psique, torna a pessoa vulnerável (…) Quando não descarregamos nossos dons, vivenciamos um bloqueio interior que nos afeta espiritual, mental e fisicamente… Ficamos sem ter um lugar para ir, quando temos necessidade de ser vistos”.

Aquilombar, onde e como for possível, cumpre essa função.

A âncora

Vale esclarecer, já nas primeiras linhas, que nossos ancestrais não são a nossa família biológica. Nossos ancestrais são a nossa família espiritual. E são eles que nos sustentam ao longo dos milênios, em África e em diáspora, mundo afora. 

Nossos ancestrais, nossa origem africana, é nosso apoio, arrimo, amparo, proteção, nossa âncora. Por isso, somos corpos-território. Por isso, juntos, somos mais fortes. Por isso, compreendemos o tempo além do tempo

As filosofias africanas ensinam: a hora é do Ocidente; o tempo é nosso. A individualidade é eurocêntrica, enquanto nossa existência é coletiva, expressa na filosofia Ubuntu, no “eu sou porque nós somos”, de comunhão com todos os seres viventes, de compreensão da natureza como fundamental para o nosso existir. 

Nunca estamos sós e quando “investimos” no oposto, distraídos, adoecemos.

Provocações

Com consciência da ancestralidade em nós, da coexistência, da cosmo-percepção, do sentir antes de pensar, como falar em solidão?

Para a Organização Mundial da Saúde a solidão já é uma epidemia, uma impossibilidade – e vou repetir esta palavra algumas vezes neste texto – de bem viver. Mas a quem interessa alimentar a solidão em nós? Nos adoecer? Fragilizar?

Arrisque a resposta certa:

(   ) racismo estrutural

(   ) privilégio branco

(   ) movimento feminista

(   ) indústria farmacêutica

(   ) capitalismo

(   ) outros

(   ) todas as alternativas anteriores

Qualquer que seja a resposta, nenhuma é a nosso favor, a favor do nosso bem viver, para reparar as injustiças vividas pelo nosso povo.

É difícil ser negro. Não há espaço para a confiança. A gente vê maldade em tudo ou é inocente útil. Desafiador aceitar. Mas é assim que é. Mas somos bons em aprender, re-aprender, resgatar, re-existir… 

O tema

Se fala muito em ‘solidão da mulher negra’. No título, eu proponho “solidão da negritude”. Mas os pontos de interrogação e exclamação contam do meu espanto e dúvida a respeito…

Será que os homens negros também sentem a tal da solidão? Será que crianças negras sentem a tal da solidão? Bebês sentem? E os velhos, as velhas?…

O que é essa tal de solidão? 

Qual é a sua fonte? 

De quantas maneiras ela se manifesta?…

Solidão é uma palavra de origem latina – solitatem”, a qualidade de estar sem ninguém. 

A OMS – Organização Mundial de Saúde define conexão social como a relação das pessoas entre si e a solidão como um sentimento doloroso que surge da falta dessas conexões reais. 

Especialistas explicam ainda que uma pessoa pode experimentar a solidão, mesmo quando está acompanhada por outras pessoas ou em ambientes que promovem a interação.

Dado da realidade

Para nos separar e nos manter escravizados – mesmo sem grilhões -, nos desumanizaram, disseram que não tínhamos alma, que a nossa fé era do “capeta”, que éramos sujos, fedidos, feios… 

Inventaram a raça – para criar categorias -, o colorismo, a preguiça dos povos originários,… E, no meio de todas as atrocidades às quais fomos submetidos, depois de 350 anos de trabalho forçado, violação de corpos e toda sorte de torturas, decidiram que éramos vagabundos, declararam que os violentos eram os homens negros, e nos reduziram a a “burros de carga” e “reprodutores”… 

Será que tudo isso gerou solidão ou banzo – o estado de depressão psicológica que tomava conta dos africanos escravizados assim que desembarcavam no Brasil, uma enfermidade crônica, nostalgia profunda que levava os negros à morte?

Insisto na reflexão…

Dedo em riste

Quando se fala da solidão da mulher negra – o dedo é apontado para o homem negro. Mas, timidamente, os homens começam a defender-se dos ataques. E também apontam o dedo – só que para a mulher branca! Ou melhor, para o feminismo branco que, apoiado na economia, cooptou a mulher negra para o seu movimento de emancipação.

Quer dizer, enquanto a mulher branca ia reivindicar o direito ao trabalho, deixava trabalhando em sua casa – não raro sem carteira assinada – a mulher preta, que aprendeu a “fazer coro” às palavras de ordem das feministas, como se nossas pautas fossem confluentes!

No artigo “Sobre essa tal solidão do homem negro”, @Táiwo Òkòtó escreve que, apesar de todo deboche, a solidão do homem negro é um dado da realidade, mas é, também, um “tema tabu” por conta das mentiras do movimento feminista:

Primeira mentira: a mulher negra está na base da pirâmide

Segunda mentira: a mulher preta não se relaciona com homens brancos.

Terceira mentira: o homem negro não sente solidão.

A desconstrução

É muito reducionista a conclusão de que a mulher negra ocupa a base da pirâmide, com base, apenas, nos dados do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que coloca o homem negro recebendo mais que a mulher negra.

“A mulher negra não ocupa a base da pirâmide da opressão na sociedade (…) nem sofre mais porque é vítima da soma de machismo e sexismo”, escreve Táiwo Òkòtó e chama atenção para a prisão e a morte do homem negro como os maiores tipos de violência à vida, nos quais as mulheres não são nem 7% das vítimas.

O homem negro é quem mais sofre violência do Estado e quem sofre mais violência na mão do próprio homem negro. 

Em outras palavras, para o autor do texto “Sobre essa tal solidão do homem negro”, a conta não fecha na equação em que a mulher negra aparece como a que sofre mais violência na sociedade!

E o psicanalista Omoloji Àgbára ecoa esta colocação:

O feminismo negro traz questões muito violentas contra o homem negro. E existe um olhar desrespeitoso para o que acontece com o homem negro. Dizem que as mulheres negras estão na base da pirâmide. Mas a realidade é que existe um acesso maior das mulheres negras do que dos homens negros à saúde, à educação… Não se contabiliza que são eles que cometem mais suicídio, que têm maior taxa de evasão escolar… Transformam o negro no grande algoz da mulher negra e, aí, no lugar de juntos combatermos a branquitude, ficamos brigando entre nós.”

Leia a entrevista completa de Omoloji Àgbára em As dores no masculino.

O que a gente sabe, desde sempre, é que ódio, inveja e desejo são os sentimentos que pautam a relação de homens e mulheres, brancos e brancas, com os homens negros. 

Nunca é demais lembrar que, na luta pelo voto feminino, as sufragistas – mulheres brancas – não aceitavam, de modo algum, que o homem negro conquistasse, antes delas, o direito ao voto.

Sobre a preferência das mulheres negras por homens brancos, Táiwo Òkòtó escolhe não julgar – “os brancos nos querem fazer acreditar que quem menos gosta de negro é o próprio negro” – e chama atenção para o fato de o povo negro ter sido submetido igualmente à menos valia e a enxergar a pessoa branca como “o salvador”. E conclui: “é questão de raça e não de gênero”.

Leia o artigo, A gente, homem negro, é da hora.

Dividir para enfraquecer

Mesmo aceitando a solidão como um dado da realidade – e não apenas mais uma tática do capitalismo para vender remédios, nos manter sob controle, por exemplo -, concordo que não é questão de gênero. Dividir o povo negro, desde sempre, é estratégia de manutenção de poder.

A interferência da branquitude no nosso viver tem garantido a animosidade entre nós e, ao mesmo tempo, a apropriação da nossa cultura, que é nosso sistema imunológico, nosso caminho de crescimento, e de cidadania! – nunca é demais observarmos/avaliarmos as pessoas que elegemos para nos representar nos parlamentos que em nada se parecem com a maioria do povo brasileiro, negro e feminino!

É fato que as mulheres negras estão mais organizadas, são maioria nos movimentos organizados e nos espaços acadêmicos. E é fato, também, que existe uma menor disponibilidade em acolher o homem negro nestes espaços.

E não vale dizer que “é mimimi de macho escroto”! 

Onde o homem negro está só?

Na impossibilidade. 

Impossibilidade que se traduz no encarceramento, na morte, na alta taxa de desemprego, que o coloca como a maioria da população em situação de rua e nos abrigos. 

Impossibilidade que se traduz nos orfanatos, habitados por uma maioria de meninos negros, os menos adotados, os menos abraçados, os que recebem menos padrinhos para lhes dar presentes…

E tem, ainda, os meninos e jovens aliciados pelo crime organizado e os milionários – a fama, o talento, o dinheiro não garantem acolhimento ao homem negro!!!

Impossibilitar o existir do homem negro, aliás, é estratégia do sistema desde a abolição do 13 de maio de 1888. Com a criação do primeiro Código Penal, em 1890, homens negros sem carteira assinada, eram encarcerados por vadiagem. Homens negros com instrumentos de percussão, eram presos por estarem “armados”…

Quando do desenvolvimento da ciência dos “bem nascidos”, criada para garantir o branqueamento da população brasileira, exterminar o homem negro era condição fundamental: mulheres negras procriariam apenas com homens brancos, até que não restasse um único ser vivente com melanina neste território. 

Pouco se fala da humanidade do homem negro, dos seus desafios de existência, sem direito a lágrimas, a revelar suas dores, porque homem que é homem não chora, não banca “mulherzinha”, não posa de “emocionado”…

Onde a mulher negra está só?

Em artigo intitulado A solidão do homem preto, Maurício Pestana comenta que sempre se depara com o tema da solidão da mulher negra em relatos, pesquisas e estudos que dão conta da complexidade de uma das faces mais nefastas que o racismo imputa a esta parcela da população.

A ênfase é a solidão do amor romântico, de não ter alguém para chamar de seu, de sua. Sobre isso, a pensadora norte-americana bell hooks, em seu artigo Vivendo de amor, escreve:

 “Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público”.

Mas o amor romântico, de modo geral, é negado para as pessoas negras. São as pessoas brancas os mocinhos e mocinhas dos filmes, os príncipes e princesas, os super-heróis e as super-heroínas… 

E mesmo as pessoas negras que optam por relacionamentos interraciais, no dia a dia, enfrentam a solidão de não se reconhecerem nos espaços que ocupam – o aquilombamento fortalece!

As pesquisas informam, ainda, que a solidão da mulher negra se faz presente no mercado de trabalho – esteja ela empregada em uma casa de família, esteja ela em cargo de direção nas empresas. Mulheres negras também são minoria na parcela economicamente ativa da sociedade.

Violar e servir

E o estar só se manifesta também em outras áreas de atuação em que a mão de obra negra é “valorizada”. À mulher negra é reservado o papel de cuidadora. Ao homem negro é reservado o papel de segurança. Funções que têm por característica proteger o bem-estar, servir, o que não deixa de ser uma contradição, como o é o próprio racismo.

As mesmas pessoas taxadas de violentas, sensuais, sujas, mal cheirosas, desonestas, são contratadas para cuidar de crianças, garantir a alimentação da família, assistir pessoas doentes, idosas e pela manutenção da tranquilidade, da paz, da preservação de chefes de família, pessoas de negócios… E não é demais observar que são profissões solitárias e que exigem prontidão 24 horas

Será mesmo que faz sentido falar da solidão de mulheres negras? Será que separar a solidão – banzo, para mim – de homens e mulheres de origem africana não nos coloca – mais uma vez e de novo – a serviço do racismo estrutural?

A solidão das pessoas negras – homens e mulheres – está presente quando elas ocupam funções subalternizadas, alcançam posição de destaque nas empresas, destacam-se em áreas de excelência como a medicina, a tecnologia de informação… E é tudo muito além do amor romântico.

Leia o artigo Amor afrocentrado.

Questão histórica

A solidão da negritude é histórica, “herança” da escravização e das formas de se relacionar desde o período colonial. A afetividade sempre foi negada para pessoas negras ou maculada pelas pessoas brancas. Os que vieram antes não eram donos e donas de seus corpos. Não existia direito à autoproteção ou a proteção do amor vivido e compartilhado.

A infância negra, desde sempre, é exposta à exclusão, à solidão. No passado, não tinha direito a pai e mãe, a ser criança. No presente, em alguma medida, vive os mesmos desafios, além de não ser escolhida para fazer par na quadrilha da escola, não ser eleita a mais bonita da turma, a dama de honra dos casamentos… 

Quantos e quantas de nós crescemos ouvindo que para sermos tratados e tratadas como iguais tínhamos de ser duas vezes melhor?! Com certeza, nossos pais queriam nos estimular a “vencer na vida”. Mas, muitos e muitas de nós, se colocaram no lugar da impossibilidade por serem apenas bons.

E faz pouco tempo que começamos a falar desses gatilhos, a partir das estratégias dos nossos pais, de nossa família, que só queriam a nossa prosperidade, que a nossa vida fosse melhor que as deles.

Não nos cabe julgar, mas entender. E, se possível, não repetir a mesma tática com os mais novos. E isso vale para a nossa relação com as pessoas negras que pensam e agem diferente.

Ressignificando…

Precisamos conversar sobre relações raciais no campo do afeto. Falar sobre amor afrocentrado, para além do amor romântico, fazendo uma imersão em nós mesmos. Precisamos resgatar nossa própria humanidade na origem, africana. O alimento da solidão é a não consciência de si.

O corpo negro guarda histórias, memórias ancestrais – dos que vivem em nós -, dores, medos, violências, cansaços, emoções… Mas também guarda sabedoria, sentimentos, força, caminhos de cura…

O corpo negro sente o que a história sempre tentou esconder.

Quando a gente se trata com amor, a gente cura muito mais que a nossa própria história. Quando a gente se trata com amor, rompe ciclos, honra quem veio antes.

E precisamos, também, aguçar a olhar para perceber que a “bondade branca”, muitas vezes, custa o protagonismo negro. Isso porque mo branco “abre espaço”, mas não sai de cena. Cabendo a nós, a gratidão! Não raro, a ajuda, o apoio, encobre a nossa potência, o nosso saber.

Assim, também, não se fala em reparação, em justiça restaurativa, que é o que nos interessa, sob todos os pontos de vista.

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Fontes: Folha Vitória, Afrocentricidade, Letras, Katiúscia Ribeiro, vídeo O futuro é ancestral, e-book Ancestralidade Africana, de Abiola Akande Yayi, UnivatesCiberduvidas, Geledés, Correio Braziliense, CNNbrasil, Medium, Dissecando o Racismo – O Erro da Pirâmide de Opressões

Escrito em 28 de julho 2025

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