EDIÇÃO
Carnaval: Ícones da Resistência
Esta edição se inspira na história do povo preto do Brasil, a partir dos que vieram antes, de um tempo em que o carnaval era coisa só nossa – nossas vozes, nossos corpos, nosso lugar de falar, de resistência, re-existência, sonho. Um tempo em que a questão de gênero pesava sim, mas no qual o sagrado e o profano se confundiam na batida do tambor, em que a ala das baianas não era obrigatória porque todos sabiam que elas representavam a sustentação espiritual da escola. Um tempo em que nada tinha a ver com sucesso, horário nobre, tela de tv, nota, troféu, espetáculo pra turista… Samba pé no chão se dizia…
Ninguém sabia a história de Madame Satã, nascido livre em 1900 e escravizado duas vezes, trocado por uma égua anos 7 anos de idade, para garantir que seus 17 irmãos não passassem fome, nem de Madrinha Eunice, de 1909, negra do partido alto, mulher de axé, que vendia fruta na rua e tinha 41 afilhados – não podia ser mãe, nem de Xica Manicongo, batizada como homem pela Igreja Católica no século XVI…
Muitos pioneirismos negros são conquistados durante o Carnaval. Mulheres derrubam muralhas e ocupam lugar na ala de compositores, tomam o microfone para conduzir a escola na avenida e se apoderam dos tambores…
Nascidos do sexo masculino, também, derrubam barreiras ostentando sua identidade de gênero, o jeito que querem ser vistos e viver. E, antes disso, homens vestidos de baianas (para homenageá-las) ficam nas beiradas dos desfiles de Carnaval com a função de proteger os membros da escola.
A fantasia era um modo de homenagear as tias baianas, em sua grande maioria, mães de santo, cozinheiras e quituteiras, que abriam suas casas para as rodas de samba nos tempos da repressão ao Carnaval.
Esta é a proposta da edição: memoriar. E, com este objetivo, chamamos atenção para 13 artigos, entre os muitos textos do nosso acervo sobre o tema.
Os desfiles de rua resultam de um processo que envolve a colonização de corpos e mentes, proletarização de ex-escravizados, a redefinição social do negro no contexto urbano brasileiro e a sua permanente exploração. Mesmo assim, é pelo samba, também, que o negro segue em busca da liberdade, contracolonizando o próprio existir, como confirmam as histórias das pessoas celebradas nesta edição de ícones da resistência.
SÉCULO XVI
Xica Manicongo, travesti pioneira que vira presidenta da República no Carnaval
1847
Chiquinha Gonzaga, autora da primeira marcha-rancho carnavalesca

Chiquinha Gonzaga, a maestrina negra e abolicionista
1854
Tia Ciata, a baiana matriarca do samba carioca

Tia Ciata, a baiana matriarca do samba carioca
1900
Madame Satã, travesti destaque nos concursos de fantasia no Carnaval

Madame Satã, uma travesti artista militante
1909
Madrinha Eunice, fundadora da primeira escola de samba São Paulo

Madrinha Eunice, fundadora da primeira escola de samba de SP
1913
Jamelão, por 58 anos porta-voz da Estação Primeira de Mangueira

Jamelão, o tenor do samba
1921
Dona Ivone Lara, a número 1 na ala de compositores

Dona Ivone Lara, a nº 1 na ala dos compositores
1921
Mercedes Batista, a dança da resistência dos palcos para o Carnaval de rua

A dança da resistência de Mercedes Baptista
1928
Deixa Falar, a primeira escola de samba

Deixa Falar, a primeira escola
1944
Leci Brandão, primeira mulher negra, homossexual, na ala de compositores da Mangueira
1952
Vera Verão, primeiro homem rainha de bateria, primeira nudez no Carnaval

A Vera Verão de Jorge Lafond
1974
Ilê Ayê, primeiro bloco afro do Brasil

Ilê Aiyê, o mundo negro resiste
1993
Banda Didá, a primeira banda de mulheres que tocam tambor

