Grace Jones, a diva indomável
Perfil escultural, 1,79 m de altura, maçãs do rosto acentuadas, visual andrógeno, olhar marcante, performances atraentes, símbolo de moda, arte, excentricidade, glamour, atriz, multifacetada, lenda
Grace Jones
A criatividade negra é um dado da realidade. E a sua apropriação pela branquitude também. A música escancara esta prática colonial, segundo a qual, é dono aquele que toma para si, como propriedade; o que não lhe pertence; aquele que se apossa do que é do outro.
Assim o Brasil, habitado por indígenas, foi “descoberto” e nossos corpos tornaram-se propriedade de pessoas que não gostavam de trabalhar – mas que chamava aos nossos, escravizados, de “preguiçosos” -, que não gostavam de tomar a banho, mas reclamavam do nosso cheiro!
Este preâmbulo interessa para contar de nossa resistência re-existente.
Durante muitos anos estivemos ausentes dos meios de comunicação – nossos compositores vendiam suas músicas para sobreviver, enquanto os intérpretes faziam sucesso!
Os vídeos clipes mudaram esta história para nós. Nosso corpos ganharam protagonismo, movimento e contaram de um modo de estar no mundo se revelando também a partir do modo de vestir.
Michael Jackson, bailarino, cantor, compositor, performer, produtor, empresário, criança precoce, luz e sombra, dor e prazer, que representa várias versões de todos nós, criou passos para seguirmos.
Ele é o primeiro cantor afro-americano a ter um clipe exibido na MTV, alavancando a fama do novo canal. Era 2 de março de 1983 e foi ao ar a obra prima Billie Jean.
E junto com Michael Jackson uma nova tendência de moda com jaquetas cropped, calças skinny, muitos zipers, correntes, mocassins, meia branca, e luvas!!! Aliás, ele era o rei das luvas. Sem esquecer os brilhos.
Vale lembrar, ainda, a elegância dos grupos de Soul e R&B, inspirações para Whitney Houston, bem como os capuzes e bandanas, em especial nos registros fotográficos e apresentações de discotecagem do coletivo de música eletrônica de preto Underground Resistance, como estratégia de mostrar a igualdade entre todos os membros e não criar uma imagem a ser comercializada.
Também agita o cenário, dentro do binômio música-moda, a Cultura Ballroom, considerada uma ‘subcultura’ LGBTQIAP +, também conhecida como “Ball Culture” e sinônimo de resistência e celebração.
Traduzida, a palavra significa o “salão de baile” e, a princípio, nos anos 1920, o movimento era apenas uma festa para a comunidade, onde pessoas LGBTQIAP+ se encontravam e vestiam roupas do gênero oposto. Mas, a partir dos anos 1950, se reinventa criando, inclusive, uma dança com o nome da revista de moda mais famosa do mundo, Vogue.
E destaque-se ainda Will Smith, o ator e rapper de Um Maluco no Pedaço que, com o seriado, nos anos 1980, ditou muita moda que está retornando, agora, ao guarda-roupas dos jovens.
Ainda pensando nos que brilhantes antes, uma marca literalmente registrada que acompanha o som: Bob Marley e seus dreadlocks!
Nas notas musicais e na letra das canções, a abordagem afrofuturista é potente e sempre vem acompanhada de um figurino.
Sun Ra, o americano do Alabama, junto com The Arkestra, começa a gravar canções baseadas no hard bop com títulos afrocêntricos e temáticos que refletem seu vínculo com a cultura africana antiga, especificamente o Egito, e a vanguarda da era espacial. Isso nos anos 1950.
Um ‘salve’ ao hip-hop de Afrika Bambaata, que apresenta pitadas do movimento, a Lee “Scratch” Perry, Juan Atkins e Jeff Mills.
Beyoncé, perfeccionista, entrega visuais completos, aclamados pelo público e pela crítica, como figurinos e penteados replicados por muitos, tudo como recheio de sua força musical e sua postura afrofuturista.
Não por acaso, ela é chamada Rainha do Afrofuturismo. No seu trabalho, Black is King, por exemplo, na espinha dorsal da narrativa, o “quem somos nós”, qual a nossa ancestralidade, de que trata este modo de estar na vida – olhando o passado para construir o futuro.
Música negra é também diálogo no tempo!
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