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Quilombo nos Parlamentos 2026

Iniciativa suprapartidária para além das legendas de esquerda, alcança mais de 20 estados do país e apresenta mais de 150 candidaturas ligadas ao movimento negro.

Primeiros Negros

Em sua primeira edição do Quilombo nos Parlamentos, nas eleições de 2022, a Coalização Negra por Direitos, que tem entre seus articuladores o ativista Douglas Belchior, apoiou mais de 100 candidaturas ligadas ao movimento negro, que reuniram 4 milhões de votos. Naquele pleito, 26 lideranças negras foram eleitas para o Congresso Nacional e assembleias legislativas nos estados.

Nesta segunda edição, entre as candidaturas, a da ex-ministra Marina Silva, do partido Rede, que se candidata a uma cadeira no Senado, pelo estado de São Paulo e é a primeira mulher negra a candidatar-se à Presidência da República do Brasil.

E é ela quem afirma:

“Nós teremos muitos ganhos aquilombando os parlamentos. Pode ter certeza, se os problemas desse país forem resolvidos para o povo preto, estarão resolvidos para a população brasileira. Nós somos mais da metade da população, no entanto, estamos subrepresentados no Congresso”.

Olho vivo

A Coalizão Negra por Direitos destaca que o cenário eleitoral de 2026 exige atenção redobrada, haja vista as fraudes em autodeclarações raciais e ofensivas legislativas que fazem retroceder direitos conquistados. Soma-se a isso o avanço da extrema-direita, que recusa qualquer agenda antirracista efetiva. 

Para Douglas Belchior, o relançamento da iniciativa Quilombo nos Parlamentos acontece em um momento decisivo:

“Estaremos decidindo quem terá poder para aprovar o orçamento, proteger direitos, enfrentar a violência de Estado e determinar quais vidas serão tratadas como prioridade”. 

O próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – destaque-se – reconhece que tem crescido o número de candidaturas negras, mas tal aumento não se converte, na mesma velocidade, em pessoas eleitas. Isso porque o dinheiro continua chegando tarde, mal distribuído ou concentrado em candidaturas escolhidas pelas cúpulas partidárias.

Em outras palavras, a máquina eleitoral permanece branca, masculina e profundamente desigual. Diante de tal realidade, além de oferecer candidaturas qualificadas – de lideranças negras de todo o país que têm condições de ocupar o parlamento e representar a maioria da população brasileira – , este ano, a Coalizão Negra por Direitos apresenta um manifesto, no qual relaciona uma série de recomendações aos partidos políticos, ao poder judiciário e à sociedade civil.

Entre elas, adotar sanções internas e comunicar à Justiça Eleitoral casos de fraude às ações afirmativas e uso irregular de recursos públicos, bem como a fiscalização do conteúdo das campanhas para impedir o uso de recursos públicos na promoção de violência política, discurso de ódio, racismo religioso, homotransfobia e outras formas de discriminação.

Os números

Em 2022, o Brasil elegeu 72% de deputados federais brancos e 26%, negros – um crescimento de 8,94% de deputados negros em relação às eleições de 2018, mas que não mudou o status do povo negro de subrepresentação.

Dos 513 eleitos, 370 se autodeclaram brancos; 107 se reconhecem como pardos; 27 se declaram pretos; três amarelos e cinco indígenas, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No pleito de 2022, o total de candidatos a deputado pretos e pardos foi de 4.886 candidaturas, ou 47% dos quase 10,3 mil postulantes.

Quanto aos senadores, o mesmo Tribunal informa que das 27 cadeiras disponíveis no Senado, apenas seis foram preenchidas com pessoas que se autodeclaram negras no registro do TSE. Na prática, nos últimos quatro anos, pretos e pardos representaram 25% da Casa, enquanto brancos somarão 75%.

Em 2022, foram 120 candidaturas apoiadas pela Coalizão e 26 pessoas eleitas que, juntas, receberam mais de quatro milhões de votos: oito cadeiras na Câmara dos Deputados e 18 em assembleias legislativas, além de 97 suplências.

Este ano, podemos fazer muito mais. Isso porque estão em jogo também não uma, mas duas vagas para o Senado por estado. A possibilidade de renovação é de dois-terços. Depende de nós.

Além das urnas

O resultado da iniciativa Quilombo nos Parlamentos, vale destacar, é mais que eleitoral. O Quilombo – aponta Douglas Belchior – revelou lideranças, organizou uma agenda comum e demonstrou que o movimento negro pode atuar de maneira coordenada na disputa institucional sem perder sua autonomia.

“Não basta eleger pessoas negras; precisamos eleger pessoas negras organicamente ligadas aos movimentos negros e comprometidas com a vida do nosso povo.” 

Douglas Belchior salienta, ainda, que foi a atuação política acumulada pelo movimento que criou ambiente para conquistas como a distribuição proporcional de recursos eleitorais às candidaturas negras, decidida pelo TSE em 2020.

Registre-se, também, que em 2023, a Câmara criou oficialmente sua primeira Bancada Negra, com direito a voz e voto na reunião de líderes. Avançamos na atualização da Lei de Cotas na equiparação da injúria racial ao racismo, na transformação do 20 de Novembro em feriado nacional e, agora, na luta pela PEC da Reparação...

“O racismo deixou de ser tratado apenas como problema moral e passou a ser discutido como estrutura de poder, orçamento, território e decisão política”.  

Na pauta

Eleição é coisa séria. Nosso voto importa.

Há uma série de desigualdades a serem superadas.

Nunca tivemos uma mulher negra no Supremo Tribunal Federal (STF).

Em 2024, o Congresso aprovou emenda que substituiu a distribuição proporcional de recursos às candidaturas negras por um piso de 30% e perdoou descumprimentos anteriores dos partidos políticos.

Pessoas negras foram 77% das vítimas de homicídio em 2024 e tiveram 2,7 vezes mais risco de ser assassinadas que pessoas não negras, segundo o Atlas da Violência 2026. 

Ainda não alteramos a distribuição racial da riqueza, da segurança, do orçamento e do poder.

#VotePreto, #VotePreta

Além de Marina Silva, candidata ao Senado por São Paulo, pelo partido Rede; Benedita da Silva, pelo PT do Rio de Janeiro; Paulo Paim, pelo PT do Rio Grande do Sul, e Áurea Carolina, pelo Psol de Minas Gerais.

Para a Câmara a Federal, para a cadeira de deputado ou deputada federal, Anielle Franco (PT-RJ); Orlando Silva, pelo PC do B-SP; Talíria Petrone (Psol-RJ); Erika Hilton (Psol-SP); Eliete Paraguassu (Psol-BA); Jones Manoel (historiador, Psol-PE), e Renato Freitas (PT-PR).

A uma vaga como deputada estadual por São Paulo, Leci Brandão, pelo PC do B, e Vilma Reis, pelo PT da Bahia.

Leia o artigo sobre a primeira edição do Quilombo dos Parlamentos, sobre o exercício do poder negro nas casas legislativas Brasil afora aqui.

Fontes: Brasil de Fato, Exame.com, Poder 360/ candidaturas, Geledés

Escrito em 15/08/2026

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