Poeta, compositor, ator e teatrólogo, é um dos mais importantes nomes do século XX a trabalhar a autoestima do povo negro do Brasil.

O que este artigo responde:
Solano Trindade era autodidata?
Solano Trindade é nordestino?
Sobre o que é a poesia de Solano Trindade?
Qual o poema mais famoso de Solano Trindade?
Quem musicou poemas de Solano Trindade?
Por que Solano Trindade é considerado ícone da cultura brasileira?
Como e onde morreu Solano Trindade?
“Quem tá gemendo,
Negro ou carro de boi?Carro de boi geme quando quer,
Negro, não,
Negro geme porque apanha,
Apanha pra não gemer…
Gemido de negro é cantiga,
Gemido de negro é poema…
Gemem na minh′alma,
A alma do Congo,
Da Niger, da Guiné,
De toda África enfim…
A alma da América…
A alma Universal…Quem tá gemendo,
negro ou carro de boi?”
“Quem tá gemendo?”, extraído do livro “Poemas Duma Vida Simples”, de 1944, é de autoria do pernambucano Francisco Solano Trindade, poeta que usa a palavra como “arma contra o esquecimento” do nosso existir, a partir de sua consciência racial inabalável.
Sua morte em 19 de fevereiro de 1974, na cidade do Rio de Janeiro, aos 65 anos de idade, em condições de modéstia material, contrasta com a imensidão do trono que ergueu para a estética afro-brasileira, do Recife, em Pernambuco, ao Embu das Artes, no estado de São Paulo.
Nas palavras do escritor Darcy Ribeiro, um dos mais importantes nomes do século XX a trabalhar a autoestima do povo negro do Brasil, Solano Trindade é quem faz surgir a Literatura Negra no Brasil.
Poeta, folclorista, pintor, ator, teatrólogo e cineasta, Solano Trindade nasce filho do sapateiro Manuel Abílio Trindade e de doméstica cafuza (mestiça de negro e índio), na cidade de Recife, no dia 24 de julho de 1908, vinte anos após a abolição da escravatura em 13 de maio de 1888.
A despeito do sangue indígena nas veias, não houve confusão a respeito de sua raça. Cresceu ouvindo a zombaria: “Oh, meu Deus, matai o Solano. Este negro feio, de beiço grande“. Mesmo pobre, ele contraria o determinismo social e econômico e se revela um ícone da cultura brasileira.
Cria de si mesmo
Autodidata, leitor compulsivo, rapidamente torna-se respeitado por contemporâneos como Drummond de Andrade. Antes de enveredar pelo mundo das artes, trabalha como operário, comerciário e colabora na imprensa.
Militância e perseguição política também marcam sua vida. Aliás, Solano Trindade é reconhecido como “o maior nome da poesia negra militante do Brasil, referência em todos os debates que se travam hoje”– palavras de Inaldete Andrade, responsável pela edição de coletânea de seus poemas sobre Pernambuco para a Secretaria de Educação do Estado.
Genial, Solano Trindade une militância, lirismo e oratória! Seu poema mais conhecido, “Tem Gente com Fome” ganha melodia na na voz do grupo Secos & Molhados, em 1975, e de Ney Matrogrosso, em 1980, passado o período mais pesado da ditadura militar:
“Trem sujo de Leopoldinacorrendo correndoparece dizer:tem gente com fometem gente com fometem gente com fome.”
Ousar denunciar a fome e propor a solução – “se tem gente com fome, dá de comer…”, levou-o a prisão, censurado por mostrar a realidade . Sua ousadia maior, entretanto, que ecoa em nós, é ir além da dor, mas contar da nossa origem real.
Cidadão brasileiro
O nordestino Solano Trindade se muda para a região sudeste do país no início dos anos 1940 – vive em Belo Horizonte (MG) – e, depois, para a região sul, mais especificamente, para a cidade de Pelotas (RS). Depois de um breve retorno a Recife, pega a estrada para a cidade do Rio de Janeiro e, em seguida, para o estado de São Paulo, onde passa a maior parte de sua vida no convívio de artistas e intelectuais na cidade de Embu das Artes.
Antes de emigrar para o sudeste brasileiro, entretanto, idealiza no Recife, em 1934, o 1º Congresso Afro brasileiro. Dois anos depois, em 1936, participa em Salvador do 2º Congresso Afro brasileiro. Em 1936, também, ainda no Recife, funda a Frente Negra Pernambucana, na companhia do pintor primitivista Barros Mulato e o do escritor Vicente Lima, e o Centro de Cultura Afro brasileira, para divulgar o trabalho de artistas e intelectuais negros.
Desde 2020, ele é Patrono da Luta Antirracista de Pernambuco , por decisão da Assembleia Legislativa do estado, que aprovou a Lei 17003, no dia 10 de agosto.

O poeta, no entanto, como seus versos, não limita o seu ativismo político à região onde nasceu. No Rio Grande do Sul, cria o Grupo de Arte Popular e, junto com Abdias Nascimento, no Rio de Janeiro, funda o Teatro Experimental do Negro, em 1945, que funciona como um núcleo ativo de conscientização dos negros, para assumirem, com orgulho, sua identidade e lutar contra a discriminação.
Isso sem falar do Comitê Democrático Afro brasileiro, também no Rio de Janeiro, do Teatro Folclórico Brasileiro e o bem-sucedido grupo de dança Brasiliana.
Destaque, ainda, para a fundação do Teatro Popular Brasileiro (TPB), nos anos 1950, em São Paulo, iniciativa que conta com a ajuda de sua esposa Maria Margarida, do sociólogo Edison Carneiro e de um elenco de atores formados principalmente por domésticas, operários e estudantes.
Com o TPB, Solano, em 1956, encena, pela primeira vez, “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes, não só no Brasil – os espetáculos do TPB percorrem vários países da Europa.
“Organizando bailados, editando revistas, promovendo espetáculos e conferências, incansável em sua atividade, poucos fizeram tanto quanto ele pelo ideal da valorização do negro“, registra o ensaísta Sérgio Milliet, em 1961.
Versos como armas
O fio condutor da multiplicidade artística de Solano Trindade é a própria negritude. Por meio da arte, ele denuncia discriminação e o racismo, trazendo à tona o ponto de vista, o olhar negro dos fatos. E a literatura negra passa a existir a partir deste momento em que o negro olha para si e passa a contar, como negro, suas experiências de vida, suas diferenças, sua identidade, e dessa forma fez Solano Trindade”, reconhece a pesquisadora Robevânia Virgens.
“O negro era, e ainda é, marginalizado, porque não vive com naturalidade sua identidade, assim como o branco” – avalia, ainda, a pesquisadora.
E buscando por toda essa valorização identitária Solano se insere na memória coletiva da identidade negra.
“O senhor faz dos seus versos uma arma, um toque de clarim, que desperta as energias, levanta os corações, combate por um mundo melhor.”
(palavras do sociólogo francês Roger Bastides a Solano Trindade)

É isso. A poesia de Solano Trindade é repleta de referências aos ritmos, costumes, religiões africanas, além de mitos e lendas do povo negro. Ele é pioneiro ao “ressignificar o ranger dos grilhões, gemidos, murmúrios e silêncios da senzala”, ressalta a doutora em teoria literária Silvana Maria Pantoja.
“E pioneiro em tratar de temas negligenciados na cultura e, de maneira especial, na literatura brasileira, subvertendo hierarquias, cânones, representações e significados de grupos até então silenciados” – indica, ainda, Kleyton Pereira.
Solano mistura uma poesia de excelente qualidade estética com um forte discurso de engajamento, denúncia e valorização do negro na cultura brasileira – e esta sua verve aparece em poemas como “Sou Negro”, “Conversa”, “Navio Negreiro”, “Quem tá gemendo?”, “Canto dos Palmares”…
Na sua poesia, são evidentes os traços de um intelectual ativo, interessado em fazer do seu trabalho um elemento decisivo na desconstrução dos estereótipos de passividade e submissão do negro.
Apesar da temática racial ser a mais recorrente, na obra de Solano encontram-se também temas como a miséria e as diferenças sociais, preocupações existenciais, a mulher, a cidade do Recife com seu cotidiano e a cultura popular, entre outros.
Mano dos manos
“Que foi que fizeste mano
Pra assim tanto falar?(…)
Subi para o morro, Fiz sambas bonitos,
Conquistei as mulatas
Bonitas de lá…”
É, há 40 anos, década de 1960, Solano Trindade crava a saudação mano, prefixo obrigatório entre rappers e jovens da periferia, na poesia negra brasileira – o registro é do jornalista Xico Sá, no artigo O pioneiro dos manos, publicado na Folha de S. Paulo de 15/09/01.
Ao dedicar-se ao combate à intolerância, com uma obra que guarda as dores, mas não esquece do lirismo devoto às mulheres, o poeta firma-se, entre os militantes do movimento negro.
Toda a sua poesia é relançada pela editora Cantos e Prantos, no volume “Solano Trindade – O Poeta do Povo“. A edição reúne os livros “Poemas de uma Vida Simples” (1944), “Seis Tempos de Poesia” (1958) e “Cantares do Meu Povo” (1961), este último, relançado pela editora Brasiliense no início dos anos 1980.

“Tem gente com fome“, seu poema mais famoso, tem uma versão ilustrada para crianças. Sua história está registrada no documentário do cineasta recifense Alessandro Guedes, “Solano Trindade” – 100 anos”, de 2008.
Em Recife, no Pátio de São Pedro, bairro de São José, encontra-se uma estátua em sua homenagem.
Solano Trindade trabalha no filme A Hora e a Vez e Augusto Matraga, do cineasta Roberto Santos.
- Leia também a história de Maria Firmina dos Reis, primeira romancista negra abolicionista do Brasil.
Fontes: O pioneiro dos manos, por Xico Sá, na Folha de S. Paulo de 15/09/01; Wikipédia, Vermelho.org, Cidinha da Silva, Diário de Pernambuco, Leis Estaduais
Escrito em 28 abril de 2017, atualizado em março de 2024
Obrigado por compartilhar estas informações. Levamos sempre em conta Martin, Malcom, Rosa Parks, e etc.. E esquecemos dos Brasileiros que militaram em prol dá consciência, e fim dá segregação aqui no na terra Tupiniquim.
Sensacional, já estou pesquisando sobre o Solano.